terça-feira, 20 de agosto de 2013

POR QUE O HOMEM MATA A MULHER ?


POR QUE O HOMEM MATA A MULHER ?

 Marco Aurélio Baggio

                                                                                              

         Instruído pela testosterona, hormônio de projeção por sobre o outro, portador de maior envergadura, com um terço a mais de peso corporal e dotado de musculatura mais rija, o homem é mais ativo, mais agressivo, mais forte que a mulher.

         Na relação amorosa, ele arvora-se direitos de posse, de mando, de exclusividade. Mais frágil emocionalmente, o macho tolera pior as perdas, reage desastrosamente às rejeições. Não suporta separações abruptas. Tem horror a ser abandonado.

         Seu narcisismo é mais precário. Atacado, ferido, depletado, reage em curto-circuito, atua, agride, fere, mata.

         Animal perigoso. Transforma amor em apego e necessidade de suprimento afetivo. Apegado, não admite ser relegado, abandonado. Se rejeitado, torna-se bruto, estúpido, disruptivo, destrutivo. “Põe pra quebrar”. Torna-se radical, absoluto. Furioso.

-         Se não quer ficar comigo, eu a extermino: não ficará com ninguém.

.Eis o que muitos dizem e cometem.

         Provocado, espicaçado, malferido, fica ensandecido.

         Trocado por outro, o homem enche-se de ciúmes, de inveja, de rivalidade. Sofre uma descompensação aguda rm seu precário equilíbrio psíquico, podendo entrar em curto-circuito mental. É quando então assoma em sua mente um estreitamento de consciência, ocupando todo seu campo mental com a idéia sobrevalorizada de rejeição, de traição, de menoscabo e de desvalia, acompanhada do sentimento de desamor, de menosprezo e de ciúmes. Um gentil e doce Abel romântico torna-se, de repente, um mal, perverso, invejoso e assassino Caim.

         Só pensa naquilo: foi traído, prejudicado, infelicitado, horrorizado. Reage de acordo, dentro de um âmbito muito estreito de considerações. Quer porque quer obter algum tipo de ressarcimento, de consolo, a qualquer custo, de qualquer jeito. Então agride. Se não obtiver um pronto apaziguamento narcísico, suas emoções de vingança vão num rápido crescendo, adquirindo características facinorosas.

         Malignizado, com o diabo no corpo, sob violento estado de estreitamento de consciência, o homem é possuído pela loucura de querer intrujir sobre quem o abandonou, forçando a mulher a submeter-se à sua carência. Apavorada, a mulher que foi capaz de manifestar sua atitude de desapego da relação, entra no clima da discórdia, luta, revida, esboça resistência.  Isso funciona paradoxalmente, aumentando a fúria do atacante. Está assim configurado o cenário da tragédia anunciada.

         Duas atitudes assanham a fúria do homem em via de ser abandonado: a reação agressiva e desafiadora da mulher dá motivo a que o homem veja justificada sua fúria. Também a expressão de fraqueza e de fragilidade da mulher açula o ataque da besta-fera. A experiência de vida ensina que, em se tratando da voragem da separação aguda de parceiros, a melhor atitude por parte do parceiro que quer ir embora – no caso, a mulher - é uma fria, dura, consistente assertiva indiferença...

 

          Você foi saindo de mim

         Devagar e para sempre...

Ivan Lins e Victor Martins.

 

         Se um terceiro apaziguador não interferir, separando os dois contendores envolvidos a quente em seu violento conflito, agressões serão cometidas.

         Toda a racionalidade se perde. Todo o respeito desaparece. O amor se transmuta em ódio e desejo de vingança. Sabe-se que o afeto vingança é quase insaciável: quanto mais desaforo se faz, quanto mais se vinga, mais se quer vingar. O império do narcisismo malferido passa a ser preponderante. Quer-se obter uma reparação radical à metade do ser abandonado que foi perdida pela atitude de separação do outro.

 

          Você um dia me disse que me amava. Acreditei em você. E também confessei meu amor por você! Quem ama se doa e possui o outro. Foi tão difícil encontrar alguém que me amasse e me fizesse amar... Então, com que direito você me diz, desabusadamente, que não me quer mais? Não admito que você tome essa atitude. Mais: não permito que você me deixe. Quero você. Preciso de sua companhia me dando cobertura e inteireza. Não sou mais eu sem a sua cumplicidade. Você é a outra metade de mim, que me dá conforto, completude, alegria e identidade.

        

Ai, ardido peito

         Oh, pedaço de mim

         Oh, metade arrancada de mim

         Oh, metade amputada de mim

         Leva o que há de ti

         Que a saudade dói latejada

         É assim como uma fisgada

         No membro viril que já perdi

         Eu não quero levar comigo

         A mortalha do amor

         Adeus.

Chico Buarque.

 

         Mata-se a mulher amada/odiada/imprescindível, num assomo de inveja e de cólera ao sentir a derrota pessoal na relação a dois. Quem mata é aquele parceiro mais primitivo, o mais necessitado e que está despreparado para voltar a viver sozinho, após haver experimentado as excelências da gostosa e plena relação amorosa. Na maioria das vezes, este parceiro mais tosco é o homem.

         A mulher mata seu parceiro amoroso, mais frequentemente, como reação aos maus tratos e aos espancamentos que sofre dele.

         O homem mata a tiros ou a pancadas. A mulher mata à traição, com faca ou machado. Ou com veneno. Ou com vidro moído na refeição.

         O que não se admite, por ser uma das dores psíquicas mais intensas, é ser abandonado como um cão sem dono, exatamente por quem, até há pouco, propiciava-lhe o glorioso sentimento de que “eu sou o máximo!”.

         A vivência do amor, por dois compartido, é uma das mais ricas possibilidades de vida de todos nós.

 

         Eu faço samba e amor até mais tarde

         Tenho muito sono de manhã.

         ..............................................................

         De madrugada a gente ainda se ama.

         E a fábrica começa a buzinar

         O trânsito contorna nossa cama

         Reclama

         Do nosso eterno espreguiçar.

 

         Não sei se preguiçoso ou se covarde

         Debaixo do meu cobertor de lã

         Eu faço samba e amor até mais tarde

         E tenho muito sono de manhã

 

         No colo da bem-vinda companheira

         No corpo do bendito violão

         Eu faço samba e amor a noite inteira

         Não tenho a quem prestar satisfação.

 

Samba e amor.

Chico Buarque de Hollanda. CD Tanto tempo. Bebel Gilberto. Manaus. Zirigiboom. 2000.

 

         Como quase tudo na vida, o amor obedece a uma seqüência de etapas: surge fulgurante, desabrocha, expande, cresce, atinge um cimo, estabiliza, evolui e dura, desgasta, decresce, fenece, estiola e acaba. Ninguém tem garantia de perenidade nas relações amorosas.

         O amor quando acaba é a coisa mais triste que há. Os homens são, como sexo emocionalmente mais frágil, suas maiores vítimas. Ser vítima é uma arma quente e ferina. Os parceiros amorosos só toleram se separar dignamente quando percorrem as várias etapas do luto que descrevi em “O processo de exaustão de uma relação a dois”, no meu livro Música Popular Brasileira: os conscertos da vida. Campinas: Psy, 1996. Lá esta esquematizado as etapas evolutivas do perecimento da relação amorosa. A saber:

        

1.     A vivência de incompletude.

2.     O encontro.

3.     Sondagem.

4.     Idílio.

5.     Encanto.

6.     Cotidiano.

7.     Constatação de que a relação vai mal.

8.     Tentativa para consertar.

9.     Ressentimento ou vingança.

10. Derrota pessoal.

11. Desistência da relação e convicção do término da mesma.

12. Recuperação narcísica integral da mesmidade.

 

É quando cada qual pode cantar, dolorido mas exultante:

        

                  Devolve ao meu peito

                  Um velho coração

                  Que sempre foi só seu

                  Agora, meu amor, entre nós dois

                  Eu sou mais eu.

                           Zizi Possi. LP Zizi Possi. Eu sou mais eu. Xixa Mota. Rio, 1980.

O que vai permanecer de bom depois de um percurso bem percorrido de separação amorosa é a nostálgica lembrança:

 

                  Ah, mas há que se louvar

                  Entre altos e baixos

                  O amor quando traz

                  Tanta vida

                  Que até pra morrer leva tempo demais.

Sueli Costa. LP Louça fina. Altos e Baixos. Sueli Costa e Aldir Blanc, Rio, 1979.

 

Quando um dos dois se atrasa nesse processo ou, pior, quando um se tresmalha do caminho, a subtaneidade da separação abrupta pode funcionar como estopim para a baixaria ou para o crime.

Se o que eu disse é correto e explica uma grande parcela dos móveis de um crime passional, quero deixar claro que não pretendo que esta compreensão sirva, absolutamente, como atenuante à sanção que a justiça deve aplicar ao criminoso. A vida adulta oferece liberdade às pessoas para lidar com veículos, com negócios e com relações humanas – familiares, sociais ou amorosas – com competência e responsabilidade.

Cada um deve ser sancionado em correspondência à sua falha e à sua falta. O crime passional cometido sob forte emoção ou em defesa de uma abstrata “honra” não merece nenhuma atenuação penal. No máximo, deve servir a cada um de nós de exemplo para não ser seguido. Talvez comporte, de nós, apenas uma gota de compaixão.

O sétimo é o maior e o mais absoluto mandamento da Lei:

 

-         Por tudo aquilo que te fizerem, não tens o direito de matar.

-         Nada justiça o assassinato. Portanto, homem que mata mulher, mulher que mata homem, amantes que se matam devem ser rigorosa e implacavelmente punidos. Sem contemplação. Só assim coibriremos e reduziremos a incidência de crimes passionais no futuro.

         O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social que, breve, irá financiar cirurgias plásticas, deveria também criar um linha de crédito para possibilitar acesso a tratamento psiquiátrico aos amantes que entram em processo de dissensão.

         Matar é burrice. É exterminar a preciosa vida do outro e degenerar a própria vida. Ninguém pode arvorar-se de dono e proprietário de outrem. Quando um já não quer, dois não mais namoram nem permanecem juntos.

 

         Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa...

canta o samba-canção exemplarmente.

 

Se amar é juntar e enriquecer a dois, separar é perder e empobrecer em 60% o acervo convivencial que já não é mais comum de dois. Se amar foi sua ruína, você desfrutou das delícias enquanto pôde e há de arcar com as consequências depletadoras da separação.

         Sem se desproduzir. Sem desatinar e sem enlouquecer.

         Loucura é luxo existencial.

         Se tiver de gastar dinheiro e sofrer perdas patrimoniais ao longo do processo de separação, isso estava implícito no começo do jogo amoroso. Não há o que recalcitar.

         Não matar é o principal interdito que viabiliza a vida em sociedade.

 

 

         “Babão” e “Rodriguinho” se conheceram em uma favela. Trocaram armas: “Babão” cedeu um revólver bacana em troca de dois outros usados. No entanto, “Babão” retirou a mola do gatilho. Quando “Rodriguinho” percebeu que o revolver não atirava, reagiu, naturalmente, com raiva. Durante semanas, buscou uma compensação, ficando atrás de “Babão”. Andou falando em vingança, em morte, esses desaforos... Culpado, com medo, “Babão” viu “Rodriguinho” assentado no chão, junto a um muro. Chegou perto e descarregou o revólver em “Rodriguinho”, 20 anos. Depois, calmamente, recarregou a arma e despejou mais bala. Um crime banal. Dele extrai-se a óbvia lição:

         Se você lesa o outro em uma transação qualquer, você o terá como fiel perseguidor no seu encalço. Se você faz mal a alguém, por maldade ou má-fé, está criando o caldo de cultura propício ao crime, à dor e à tragédia.

         É mais vantajoso que toda transação humana seja lisa, correta, desempenada e transparente para não deixar “gancho”, não criar ranço e não dar motivo a querelas.
         Por que os seres humanos querem tirar vantagem em tudo e agem de maneira tão leviana, se foram feitos à imagem e à semelhança do Senhor das Esferas?

Considerações de Marco Aurélio Baggio


Considerações de Marco Aurélio Baggio.

 Marco Aurélio Baggio

A política hoje, no Brasil, tornou-se a arte da canalhice possível. País meandroso, melindroso, dotado de uma sociedade leniente, cheia de advogados acoitados e beneficiados em defender e isentar a delinquência, a corrupção e o crime. Tal sociedade dispõe de uma poderosa e onipresente mídia eletrônica, cuja principal tarefa tem sido propalar as ações delituosas que a cada dia chegam nessa grande delegacia de polícia que se tornou o Brasil. Parece que, para a imprensa, só interessa a bandidagem e a bandalheira que vigora em nosso alcandorado país. Notícias decentes, ações justas, atitudes nobres, atos produtivos, comportamento correto? Nem pensar: Parece que não tem consistência nem nobreza para se tornar notícia.            

Ações malignas são camuflagem, formações reativas, passagem ao ato delinquente para negar a precariedade e a insuficiência a-ser do sujeito. A posse de armas “de defesa” constrói as portas que contém os arsenais da maldade.

            As drogas de curtição dissolvem os nobres contensores éticos presentes no psiquismo de um indivíduo até então decente.

O assassinato mora no coração do homem. Por isso, o quinto é o mais sério e legítimo impedimento a ser inculcado no psiquismo de cada ser humano: Não matar.

            E, no entanto, só no século XX, trezentos milhões de pessoas foram assassinadas. O homem é o predador do homem. Faltando o amor anelado, o ente perde o talante, enche-se de mal-estar, quase afoga-se, daí atua, desembesta e torna-se mal feitor. O mal deriva da precariedade e da insuficiência do ser não-querido pelos pais e pela sociedade, ser repudiado, rejeitado, abandonado, lançado no sofrimento de não tornar-se aquilo que se quis.

            Na falta do predomínio do Bem, proveniente do colo ditoso que o nutre com o leite da bondade humana surge/aflora o pulsional do animalzinho besta-fera que somos, com sua fantasmagoria macabra proveniente de sua dimensão inconsciente fundante.            A ausência da bondade reiterada e sustentada, destampa a caixa de maldades, sempre presente no psiquismo humano.

            Animal cujo psiquismo foi forjado nas cruas emoções tenebrosas de luta e de fuga, milênios atrás, vivenciando emoções de pavor, de inermidade, sempre a beira de vir a ser engolfado e devorado pelo predador, os seres humanos tem cravado em seu psiquismo a impiedade que vigora na natureza: o peixe maior devora o menor: Matsyanyaya.

            Como antídotos, busca-se a ilusão da onipotência e a negação da fragilidade, ao encontrar o dinheiro fácil, a droga de curtição, o exercício do poder maligno e da posse de arma. A assunção da ascendência e do poder mantém o equilíbrio instável que sustenta o longo arco da vida do homem. 

Seres humanos são pura fereza, agindo em princípio, com estupidez e ignorância. Seres humanos são indóceis ao comando. Refratários à exortação para o bom proceder. Homens são seres irascíveis, impulsivos, néscios, imprudentes e irritáveis. São egoístas. Maus por natureza.

            Muitos seres humanos tem gosto em praticar o mal, em infligir o mal ativo por pura perversidade sobre os seus semelhantes. Certa porção dos homens é movida, biologicamente, com a dotação malévola do diafoto Caim. São cainitas. Para esses, o que vigora é a necessidade de se impor sobre o outro, necessidade de obter prestígio ainda que sem méritos.             A sede de poder para impor-se sobre os demais é o demônio do homem. O cérebro humano é uma organização muito defeituosa e debilitada. Há defeito genético de confecção no aparelho psíquico humano.

Nossa biologia mostra que somos um réptil caudado até os cinco meses de gestação. Esse réptil primitivo aflora, facilmente, quando temos motivo para sentir medo.

A natureza humana é fereza: bestial. Solta, por si, gera guerra, escravidão, corrupção, exploração, abuso sem limite. A natureza humana em liberdade, de rédeas soltas, dá vazão às más paixões e a torpeza, acarretando a licença, a anarquia, até o caos. A escravidão, a corrupção, o crime, o tráfico de armas, a troca de favores e de influências que criam privilégios indecentes, o vício em droga psicodisléptica de curtição, esse conjunto de mau proceder é como um desses venenos que se infiltram como perfume, encarnando no sujeito como acendrado egoísmo. Logo se torna hábito, prática corriqueira, altaneira e contumaz. Os seres humanos costumam ser renitentes e reincidentes naquilo que mal versam. A liberdade indócil e disruptiva só é domada pela própria desgraça. No subsolo das paixões indômitas, tudo é permitido, desde que seja mantida as aparências, e as conveniências de ocasião.            A hipocrisia é a calda que sustenta e preserva as más práticas, escondendo-as do azar da denuncia. É assim que a sociedade mergulhou em um mar de equívocos e de desacertos, desencaminhando-se pela trapaça, pela droga de curtição, pelo excesso de velocidade, pela corrupção desabrida. Criamos massas de população abandonadas, ao léu, metidos em clima de acelerada dessocialização.            Surgiram bandos bandoleiros que criam industrias do crime, escoltadas pela enxurrada de precatórios e de liminares da impunidade.

            Acrescente-se ainda o que não sabíamos: o mercado é cego e iníquo e obedece a Lei dos Talentos: “aquele que mais tem, terá acrescentado em sua pecúnia; ao que pouco tem, até esse pouco lhe será tirado.”

            A desregulamentação abrupta, sem prudência, acarreta imediata dissolução de todo limite ético.

            O capitalismo globalizado exibe acintosa profusão de fascinantes bens de consumo, nas ruas e nas vitrines, excitando o desejo consumista daqueles, milhões, “que vêem com os olhos e lambem com a testa”. O mercado de trabalho global produz mais perdedores, mais fracassados que ganhadores. A exclusão social tornou-se o produto mais difundido em nossos tempos, com sua coorte de pobreza, favelização, desestruturação familiar, devastação ambiental, violência e aumento exponencial da população carcerária jovem. “Meu cartão de crédito é uma navalha.” Canta o protesto.

            Com espanto constatamos o obvio: o crime organizado é organizado; nós não... A vida social tornou-se um filme de constante sobressalto, na qual a mídia é responsável por propalar, reiteradamente, um clima de barbarização em que parece que a vida urbana tornou-se uma “hobbesiana” “guerra de todos contra todos”. E o governo, leniente, panaca, omisso, quando chega com seus dispositivos protetores ao cidadão, chega tarde, chega errático. 
            A Justiça, essa alcandorada criação dos gregos e dos romanos, esse ideal referencial da civilização ocidental tornou-se , em nosso país progressivamente lento, errático, ineficaz e amplamente insatisfatório. Tem que mudar. Vai mudar. Vai melhorar! Esse é o imperativo da sociedade brasileira as vésperas de 2010.

Providências imediatas


Providências imediatas.

Marco Aurélio Baggio 

Quebrar o tráfico. Quebrar a cadeia da escassez e do charme. Deixar de ter o fascínio do proibido. Deixar de ser atividade clandestina. Impedir que o tráfego de drogas seja altamente lucrativo. Drogas devem ser processadas pela indústria farmacêutica. Vendida em farmácias. Tributadas pelo governo. Seus usuários devem ser identificados.

Prestigiar, equipar, valorizar o policial. Ele está na linha de frente de proteção da sociedade. Jamais desautorizá-lo, desmoralizá-lo por instâncias protegidas pela toga. Nossas leis precisam ser mais fortes e melhores. Hoje, elas são como teias de aranha, que capturam pequenos insetos, mas são arrombados pelos besouros de colarinho branco e gravata francesa. É necessário criar leis novas, claras e diretas.

É necessário criar sistema de punibilidade sem rombos, nem leniência. Precisamos de bons juízes.

É urgente melhorar o desempenho do poder judiciário.

Menos presunção, menos arrogância, menos legalismo.

Mais cooperação direta com os agentes policiais da linha de frente de defesa da sociedade. Mais concentração no foco do fato que realmente interessa: coibir o crime. A coibição da prática criminosa é o objetivo máximo de todo o sistema judicial. Mais rapidez e objetividade em apenar.

Reduzir e reformar a processualística envelhecida, cheia de evasivas, gongórica, quase ineficaz.

Nosso sistema judiciário busca maneiras de negar a dureza de nossas prisões. Verdadeiras masmorras pútridas, armadilhas de colecionar animais, prisão não recupera ninguém. Nem o poder público também não manifesta nem interesse nem, muito menos, competência para recuperar homens que recorreram ao crime. Eles são um contingente de excluídos, sem poder, sem voz, sem voto, sem ninguém por eles. São massa de descarte, em uma sociedade superpovoada que, piedosamente, defende, encarniçadamente, a vida do embrião congelado e do feto malformado. Pouco faz pela criança abandonada, e nada faz pelos jovens homens negros e mulatos, pobres e despreparados, que habitam nossos calabouços.

Somos uma sociedade hipócrita, falsa, que funciona em má-fé.  De regra, o preso aprende a ser pior que era, entra para um bando, torna-se mais ardiloso e mais perigoso. O índice de recuperação social é muito baixo. E o índice de reincidência no crime é da ordem de 60% dos apenados.

Disciplinar e melhorar a administração da punibilidade que se encontra fragmentada.

Cadeia não é boa indicação para crimes de baixo potencial criminal: pequenos delitos, furto de pão, roubo de galinha ou pé de chinelo. Cadeia de longa duração, com segurança máxima, deve ser reservada para os facínoras, os psicopatas frios de ânimo, os criminosos cruéis e para os crimes hediondos. Aliás, a propósito, qual crime não é hediondo?

Devem ser criadas cadeias de porte médio, muitas situadas em cidades do interior - de 100.000 a 400.000 habitantes. Penitenciárias devem ser diferenciadas por modalidade de infração criminal:

a)      crimes leves, passíveis de recuperação;

b)      adolescentes sujeitos à correição;

c)      enquadrilhados e gangueiros;

d)      pedófilos e maníacos;

e)      psicopatas, assassinos, criminosos reincidentes e os de alta periculosidade.

f) terroristas.

Cesare Beccaria já no século XVIII preconizava:

O crime deve ser logo apurado. A seguir, denunciado. Logo julgado, de forma rápida, objetiva, eficaz. O que se quer é punir o crime. O que se obtém é a certeza de punição. O que se objetiva é desestimular o cometimento de futuros crimes. Sabe-se que uma vez cometido o primeiro crime há enorme probabilidade de o criminoso cumprir uma longa e nefasta carreira como facínora.

Baltasar Gracián em seu excelente tratado A Arte da Prudência, no aforismo 243 adverte:

...e não se queira ser tão homem de bem que o outro tenha ocasião de o ser de mal: seja um misto de pomba e serpente; não monstro mas prodígio. (p. 143.)

Pirsig construiu uma interessante sistemática acerca da estruturação da humanidade. Ensina ele que o nível biológico dos seres humanos postado como fundamento da vida deve ser suplantado e controlado pelo nível social responsável pela organização da sociedade de convivência com vistas ao bem comum de todos. Por sua vez, o nível social deve ser suplantado e comandado pelo nível intelectual, aquele dotado de discernimento e argúcia, capaz de intelegir e encontrar os melhores encaminhamentos para as questões humanas. Já o nível intelectual deve ser pastoreado pelo nível moral – os bons costumes validados ao longo das décadas e dos séculos – e pelo nível ético, responsável pela implantação da decência, da dignidade e do respeito recíproco que deve vigorar entre os cidadãos. Por sobre todos estes, prevalece o nível estético, no qual o bom, o belo e o benfazejo coadunam-se no fecho de abóboda que é a espitirualidade laica do ser humano.
Que assim venha a ser.

A DECADÊNCIA DOS COSTUMES NO BRASIL


A DECADÊNCIA DOS COSTUMES NO BRASIL.

 

Marco Aurélio Baggio*


A realidade deixa muito a desejar.
A realidade é para as pessoas que não usam drogas
.

A droga surge para coroar um processo de fracasso existencial da pessoa.

                                                                        (Marco Aurélio Baggio)         

           

Brasil: país indecidido, leniente, irresolvido, eterno protelador.

 

Era o país do futuro. O futuro chegou e é essa mixórdia que está aí.

 

Carecemos de um Projeto Nacional. Não temos ideia de que país queremos construir para nós. Não temos um projeto de desenvolvimento sustentado, consistente, duradouro, de longo prazo. As grandes reformas jamais são feitas. A tributária, a fiscal, a trabalhista, a previdenciária, a política, a judiciária, a penitenciária, a da medicina, e outras. 

           

 

 

 

* Psiquiatra. Psicanalista. Escritor. Presidente da Arcádia de Minas Gerais.

** Palestra realizada na Sede da OAB em Belo Horizonte, em 2008.

Somos um povo bonzinho demais. Quase sem brio. Camarada para com o malfeitor. Temos dó do bandido. Somos irmão de nosso inimigo. Culpamos a vítima. Desculpamos o facínora.             Para o faltoso, temos sempre explicação, justificativa, “compreensão”.

Precários cristãos, agimos sob a égide da piedade espúria: temos dó de quem nos lesa, nos maltrata e nos infelicita. Somos ambíguos: no discurso, somos inteligentes e incisivos; na prática, somos lenientes, panacas, omissos, bobões. Como exemplo:            Nossos policiais montam sofisticadas “operações” que desmontam quadrilhas de bem postos na sociedade. Advogado “de defesa” faz petição, mira brecha na Lei, denuncia preciosismo no processo. Juiz, confortavelmente, alivia a prisão, relaxa a pena, concede facilidades. Desmoraliza o trabalho - árduo e perigoso - do policial. Desautoriza. Desconfirma. Com frequência a polícia fica atônita e desamparada:

“- Prender pra quê se o juiz solta?”

            “Temos mais de 25.000 leis, milhares de decretos-leis em vigor, quase 3.000 medidas provisórias”. Bonifácio Andrada. Mens Legis,  ano 1,   nº 2,  mar/abr/mai, 2007.

            Nosso Código Penal é de 1940 e o Código de Processo Penal é de 1941, ambos cheios de rombos, brechas e de recursos.            Somos país legiferante, com vocação juridicista em nossa ordem social e apresentamos tendência de judicialização na prática política. A burocratização federal na estrutura judiciária acarreta demoras e ineficácia processual. Vivemos uma época de despositivação da Lei. Excesso de leis é certeza de seu descumprimento. Somos um povo prejudicado e, ao cabo destituído, pelo fato de que o país está engessado por Cláusulas Pétreas:

            Direitos adquiridos.

            Fórum privilegiado de julgamento.

            Réu primário.

            Menor de idade.

            Perseguido político pela revolução de 1964.

            Constituição de 1998.

            Foro por prerrogativa de função, na prática tornou-se contrário ao interesse público.

Autorizamos nossas crianças e nossos adolescentes a assaltar, roubar, traficar e matar. Impunimente.

Não interessa discutir a idade, a maioridade penal e a imputabilidade. São discussões bizantinas. Desviadas do foco, do sério: Quem praticou o crime é responsável e, como tal, deve ser apenado. Falta gestão, falta visar o que importa: o crime. Estamos sempre criando evasivas para não coibir o crime.

A nova lei sobre “crimes hediondos” recebeu um inciso-  é um vírus-, que anula e corrompe sua eficácia punitiva e dissuasiva. Agora, de hoje, nos jornais, começa um movimento político para cercear e impedir a ação desquadrilizante que nossa Polícia Federal efetua com garbo e brilho, dando-nos a esperança de reduzir o índice de corrupção que devasta o Brasil. Somos um país que defende os “direitos humanos” dos facínoras e dos corruptos. Somos um povo que condena a vítima a ser culpada de estar diante do criminoso, na hora e no lugar errados.

Povo míope, cegado pela condolência, facilitadora dos 14.000 assaltos ocorridos no primeiro trimestre de 2007, só no Rio de Janeiro. Vivemos uma guerra civil não declarada, tapada por disfarces e negada por nossa hipocrisia.

Em 11 guerras, de 1956 a 1998, morreram 105.021 militares e combatentes em todo mundo, o equivalente às pessoas que morreram violentamente somente na cidade do Rio de Janeiro, de 1979 a 2001, um período menor. Gláucio Ary Dillon Soares. Estado de Minas, 24 de julho de 2004.

De 1979 a 2001 quase 600.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. No período, 1.960.000 pessoas tiveram morte violenta, sendo 1.181.000 no trânsito louco e 121.696 suicidas. Idem. 

            O Brasil já não e mais um país cordial. É um país violento, perigoso.             Seu governante principal é um indecidido, um procrastinador que não tem capacidade de decisão sobre qualquer assunto de interesse nacional. Líder despreparado sem cultura, nem leitura, deixa os contenciosos do país seguir à matroca. Não sabe de nada, nada é com ele. Joga as decisões para cima dos outros e posta-se como um sapo príncipe  palavroso. O Brasil sob Lula tornou-se um desastre ético explícito, vivendo em uma guerra civil não declarada. O povo tem um governante que não o merece.

 

                                Ser humano.

 

Minha amiga, vamos dar de beber à dor.

Pedro Nava

           

O ser humano só é bom sob coação. Precisa de vigilância, de admoestação e de correção.            Precisa saber que há alguém mais arguto e mais poderoso de olho nele, zelando pelo seu bom proceder. Somente o super Eu- o superego- da consciência moral internalizada exerce a vigilância sobre os atos da pessoa.

            O ser humano é um animal falido, irracional, torto, que, como predador de seu semelhante e inimigo de si mesmo, é um coletor-caçador-investidor-predador que, definitivamente, não presta. Câncer da natureza. Devastador da Terra.             Não é amigo. Nem solidário. É animal de combate e de enfrentamento. Mesquinho. Covarde. Egoísta. Aproveitador e imediatista. Tolo. Adora ser enganado.

            Mantém-se decente, na linha, por vergonha - poderoso sentimento inibidor de sua calhordice. Opta por tornar-se digno do amor e da consideração daqueles de quem depende, ao sentir-se culpado pelo mal feito. Assim, a culpa inibe sua fúria e sua fereza e o torna amansado. Põe-se então a comportar-se dentro do âmbito daquilo que sua comunidade consensou ser a melhor conduta que beneficia a todos, dentro de um âmbito de respeito e de confiança recíprocos.            A taca, o rebenque, o chicote, a correia, são eficazes agentes de dissuasão ao cometimento de canalhices.            A repressão dos caudais disruptivos do homem causa significados valiosos e cria propósitos benéficos. Literais e ou simbólicos.

            A instilação dos afetos da vergonha e da culpa controlam os caudais malévolos que, sem eles, fermentam a bandalheira no psiquismo e na conduta humana.