O MAL
Sobre a cabeça de cada um de nós pesa a maldição
ancestral de 973 milhões de assassinatos.
Marco Aurélio Baggio
O mal não tem miolo. Não tem
existência própria. Para viger, o mal depende que o bem não vigore. Em si, o
mal não tem caroço. Ele é causa deficiente. Deriva, decorre, da imperfeição da
facção. Ele é como o buraco aberto na parede pelo impacto arrombador de um
carro. Em plenitude, existe o bem. O mal não existe em si. Não subsiste por si.
Norberto
Bobbio,53:182-184 no entanto, denuncia que o mal infligido, ativo,
precede o mal sofrido, passivo, acarretando o espantoso sofrimento da espécie humana,
causado por ela mesma ao longo de toda a sua história.
O Professor Raymundo Nonato
Fernandes ensina que, segundo Santo Agostinho, o mal é ausência de uma
perfeição devida à integridade do ser. Também pode decorrer da ausência ou da
falha no processo de crescimento da pessoa.
O mal provém do nada. Há o nada
absoluto, puro não-ser. O nada relativo divide-se em nada negativo, proveniente
das insuficiências instrumentais do homem. Por exemplo, ter apenas dois olhos
frontais, quando poderia ter um colar de olhos por toda a cabeça, capazes de
enxergar 360º ou ter apenas dois braços, em vez dos quatro do Shiva hindu.
O nada privativo é aquele decorrente
do fato de que o ser vive em drama, isto é, o ser se distende por sobre
obstáculos ou por ter de se haver com vilões no teatro da existência. Só o
drama revela as capacidades da pessoa, permitindo que ela cresça e se
plenifique.
É durante o transcurso das
peripécias do drama que o ser humano se desdobra e desenovela.
O nada privativo é o aleijão, a
perda da capacidade, o olho furado, o braço arrancado que não mais existe, a
não ser como memória sentida de um a-menos. O mal privativo é pessoal e se
refere a uma perfeição perdida. A inexistência de completude é que configura o
mal. É a ausência da perfeição decorrente do buraco feito na parede. Se se
retira a parede, desaparece o buraco. Este deixa de existir. Por isso, o mal
não tem miolo, caroço, existência intrínseca como causa eficiente. É necessário
lembrar, no entanto, que o mal tem benemerência enorme, pois ele é o espaço que
está suplicando para que o sujeito opere, trabalhe, cresça, através do drama,
já que, em essência, vida é drama. Se assim não fosse, a vida seria um palco
vazio. Guimarães Rosa captou genialmente a essência do mal quando escreveu “O
mal não tem miolo”, em “Rebimba, o bom”. 195:653
Reafirma, a seguir: “O mal está
apenas guardando o lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos
impuros.”(“Sobre a escova e a dúvida”). 195:686
Harold Bloom demonstra que a ira de
Aquiles é caracterizada por uma amargura transcendental, de vez que ele é
semideus, portanto, mortal. A sua avidez de matar constitui um protesto
dialético contra a própria mortalidade. Aquiles extermina troianos quase que
com o espírito de uma criança irada que tortura um filhote de gato.49:520
Aquiles
se condena por seu próprio triunfalismo ansioso e afoito. Mata como formação
reativa a sua vulnerabilidade narcísica, bem escondida. Aquiles foi um
exterminador do passado.
O exercício do mal pode ser
camuflagem para negar a precariedade e a insuficiência do sujeito.
O mal é por defeito do bem. Tende a
ser cometido em compulsão repetitiva. É como ensina ainda Guimarães Rosa, em Grande
sertão: veredas: “Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos
exercícios de experiência.” 194:186
E revela a torpe atração que o mal exerce sobre o psiquismo humano:
“Mas, com o tempo, todo o mundo envenenava do juízo”. 194:186
Mata-se por ninharias, já que o
assassinato mora no coração do homem. Mata-se por absoluto vazio de conteúdos
éticos estruturantes no psiquismo do sujeito. Algo assim como Guimarães Rosa
explicita: “Ao que, naquele tempo, eu não sabia pensar com poder. Aprendendo eu
estava? Não sabia pensar com poder – por isso matava”. 194:362
Em A ilha do dia anterior,
diz Umberto Eco: 88:31 “[...] no fundo, o infeliz praticava o mal
para preencher o seu abandono de órfão, ofendido pelo espetáculo de seus pais
que se esmeravam em cuidado com o outro [...]”.
O
repúdio gera um estado insuportável de insuficiência afetiva à pessoa que
depende do amor e do apreço do outro.
Ao
faltar o suprimento de amor anelado, o sujeito entra em agruras de
insuficiências. Perde o talante, cai em máquinas de tristezas, rumina a
carência, empanturrando-se de mal-estar. O mal endógeno vivenciado entorna-se
para fora do sujeito. Este se transforma em um “mau feitor”. Na falta da causa
eficiente do domínio do Bem, este não prevalecendo, insurge dos internos inferus
infernais do sujeito a fantasmagoria macabra de sua dimensão inconsciente
fundante. O sonho da razão produz monstros, disse Goya. A ausência da bondade
destampa a caixa de maldades sempre presente no psiquismo humano. É uma tese.
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