terça-feira, 20 de agosto de 2013

O MAL


O MAL

 

Sobre a cabeça de cada um de nós pesa a maldição ancestral de 973 milhões de assassinatos.

                                            Marco Aurélio Baggio

 

         O mal não tem miolo. Não tem existência própria. Para viger, o mal depende que o bem não vigore. Em si, o mal não tem caroço. Ele é causa deficiente. Deriva, decorre, da imperfeição da facção. Ele é como o buraco aberto na parede pelo impacto arrombador de um carro. Em plenitude, existe o bem. O mal não existe em si. Não subsiste por si.

            Norberto Bobbio,53:182-184 no entanto, denuncia que o mal infligido, ativo, precede o mal sofrido, passivo, acarretando o espantoso sofrimento da espécie humana, causado por ela mesma ao longo de toda a sua história.

            O Professor Raymundo Nonato Fernandes ensina que, segundo Santo Agostinho, o mal é ausência de uma perfeição devida à integridade do ser. Também pode decorrer da ausência ou da falha no processo de crescimento da pessoa.

            O mal provém do nada. Há o nada absoluto, puro não-ser. O nada relativo divide-se em nada negativo, proveniente das insuficiências instrumentais do homem. Por exemplo, ter apenas dois olhos frontais, quando poderia ter um colar de olhos por toda a cabeça, capazes de enxergar 360º ou ter apenas dois braços, em vez dos quatro do Shiva hindu.

            O nada privativo é aquele decorrente do fato de que o ser vive em drama, isto é, o ser se distende por sobre obstáculos ou por ter de se haver com vilões no teatro da existência. Só o drama revela as capacidades da pessoa, permitindo que ela cresça e se plenifique.

            É durante o transcurso das peripécias do drama que o ser humano se desdobra e desenovela.

            O nada privativo é o aleijão, a perda da capacidade, o olho furado, o braço arrancado que não mais existe, a não ser como memória sentida de um a-menos. O mal privativo é pessoal e se refere a uma perfeição perdida. A inexistência de completude é que configura o mal. É a ausência da perfeição decorrente do buraco feito na parede. Se se retira a parede, desaparece o buraco. Este deixa de existir. Por isso, o mal não tem miolo, caroço, existência intrínseca como causa eficiente. É necessário lembrar, no entanto, que o mal tem benemerência enorme, pois ele é o espaço que está suplicando para que o sujeito opere, trabalhe, cresça, através do drama, já que, em essência, vida é drama. Se assim não fosse, a vida seria um palco vazio. Guimarães Rosa captou genialmente a essência do mal quando escreveu “O mal não tem miolo”, em “Rebimba, o bom”. 195:653

            Reafirma, a seguir: “O mal está apenas guardando o lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos impuros.”(“Sobre a escova e a dúvida”). 195:686

            Harold Bloom demonstra que a ira de Aquiles é caracterizada por uma amargura transcendental, de vez que ele é semideus, portanto, mortal. A sua avidez de matar constitui um protesto dialético contra a própria mortalidade. Aquiles extermina troianos quase que com o espírito de uma criança irada que tortura um filhote de gato.49:520

            Aquiles se condena por seu próprio triunfalismo ansioso e afoito. Mata como formação reativa a sua vulnerabilidade narcísica, bem escondida. Aquiles foi um exterminador do passado.

            O exercício do mal pode ser camuflagem para negar a precariedade e a insuficiência do sujeito.

            O mal é por defeito do bem. Tende a ser cometido em compulsão repetitiva. É como ensina ainda Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas: “Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência.” 194:186  E revela a torpe atração que o mal exerce sobre o psiquismo humano: “Mas, com o tempo, todo o mundo envenenava do juízo”. 194:186       

            Mata-se por ninharias, já que o assassinato mora no coração do homem. Mata-se por absoluto vazio de conteúdos éticos estruturantes no psiquismo do sujeito. Algo assim como Guimarães Rosa explicita: “Ao que, naquele tempo, eu não sabia pensar com poder. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com poder – por isso matava”. 194:362

            Em A ilha do dia anterior, diz Umberto Eco: 88:31 “[...] no fundo, o infeliz praticava o mal para preencher o seu abandono de órfão, ofendido pelo espetáculo de seus pais que se esmeravam em cuidado com o outro [...]”.

            O repúdio gera um estado insuportável de insuficiência afetiva à pessoa que depende do amor e do apreço do outro.
            Ao faltar o suprimento de amor anelado, o sujeito entra em agruras de insuficiências. Perde o talante, cai em máquinas de tristezas, rumina a carência, empanturrando-se de mal-estar. O mal endógeno vivenciado entorna-se para fora do sujeito. Este se transforma em um “mau feitor”. Na falta da causa eficiente do domínio do Bem, este não prevalecendo, insurge dos internos inferus infernais do sujeito a fantasmagoria macabra de sua dimensão inconsciente fundante. O sonho da razão produz monstros, disse Goya. A ausência da bondade destampa a caixa de maldades sempre presente no psiquismo humano. É uma tese.

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