Providências imediatas.
Marco Aurélio Baggio
Quebrar o tráfico. Quebrar a cadeia da escassez e do
charme. Deixar de ter o fascínio do proibido. Deixar de ser atividade
clandestina. Impedir que o tráfego de drogas seja altamente lucrativo. Drogas
devem ser processadas pela indústria farmacêutica. Vendida em farmácias.
Tributadas pelo governo. Seus usuários devem ser identificados.
Prestigiar, equipar, valorizar o policial. Ele está
na linha de frente de proteção da sociedade. Jamais desautorizá-lo,
desmoralizá-lo por instâncias protegidas pela toga. Nossas leis precisam ser
mais fortes e melhores. Hoje, elas são como teias de aranha, que capturam
pequenos insetos, mas são arrombados pelos besouros de colarinho branco e
gravata francesa. É necessário criar leis novas, claras e diretas.
É necessário criar sistema de punibilidade sem
rombos, nem leniência. Precisamos de bons juízes.
É urgente melhorar o desempenho do poder judiciário.
Menos presunção, menos arrogância, menos legalismo.
Mais cooperação direta com os agentes policiais da
linha de frente de defesa da sociedade. Mais concentração no foco do fato que
realmente interessa: coibir o crime. A coibição da prática criminosa é o
objetivo máximo de todo o sistema judicial. Mais rapidez e objetividade em
apenar.
Reduzir e reformar a processualística envelhecida,
cheia de evasivas, gongórica, quase ineficaz.
Nosso sistema judiciário busca maneiras de negar a
dureza de nossas prisões. Verdadeiras masmorras pútridas, armadilhas de
colecionar animais, prisão não recupera ninguém. Nem o poder público também não
manifesta nem interesse nem, muito menos, competência para recuperar homens que
recorreram ao crime. Eles são um contingente de excluídos, sem poder, sem voz,
sem voto, sem ninguém por eles. São massa de descarte, em uma sociedade
superpovoada que, piedosamente, defende, encarniçadamente, a vida do embrião
congelado e do feto malformado. Pouco faz pela criança abandonada, e nada faz
pelos jovens homens negros e mulatos, pobres e despreparados, que habitam
nossos calabouços.
Somos uma sociedade hipócrita, falsa, que funciona em
má-fé. De regra, o preso aprende a ser
pior que era, entra para um bando, torna-se mais ardiloso e mais perigoso. O
índice de recuperação social é muito baixo. E o índice de reincidência no crime
é da ordem de 60% dos apenados.
Disciplinar e melhorar a administração da
punibilidade que se encontra fragmentada.
Cadeia não é boa indicação para crimes de baixo
potencial criminal: pequenos delitos, furto de pão, roubo de galinha ou pé de
chinelo. Cadeia de longa duração, com segurança máxima, deve ser reservada para
os facínoras, os psicopatas frios de ânimo, os criminosos cruéis e para os
crimes hediondos. Aliás, a propósito, qual crime não é hediondo?
Devem ser criadas cadeias de porte médio, muitas
situadas em cidades do interior - de 100.000 a 400.000 habitantes. Penitenciárias
devem ser diferenciadas por modalidade de infração criminal:
a)
crimes leves, passíveis
de recuperação;
b)
adolescentes sujeitos à
correição;
c)
enquadrilhados e
gangueiros;
d)
pedófilos e maníacos;
e)
psicopatas, assassinos,
criminosos reincidentes e os de alta periculosidade.
f) terroristas.
Cesare Beccaria já no século XVIII preconizava:
O crime deve ser logo apurado. A seguir, denunciado.
Logo julgado, de forma rápida, objetiva, eficaz. O que se quer é punir o crime.
O que se obtém é a certeza de punição. O que se objetiva é desestimular o
cometimento de futuros crimes. Sabe-se que uma vez cometido o primeiro crime há
enorme probabilidade de o criminoso cumprir uma longa e nefasta carreira como
facínora.
Baltasar Gracián em seu excelente
tratado A Arte da Prudência, no aforismo
243 adverte:
...e
não se queira ser tão homem de bem que o outro tenha ocasião de o ser de mal:
seja um misto de pomba e serpente; não monstro mas prodígio. (p. 143.)
Pirsig construiu uma interessante
sistemática acerca da estruturação da humanidade. Ensina ele que o nível biológico dos seres humanos postado
como fundamento da vida deve ser suplantado e controlado pelo nível social responsável pela organização da
sociedade de convivência com vistas ao bem comum de todos. Por sua vez, o nível
social deve ser suplantado e comandado pelo nível intelectual, aquele dotado de discernimento e argúcia, capaz de
intelegir e encontrar os melhores encaminhamentos para as questões humanas. Já
o nível intelectual deve ser pastoreado pelo nível moral – os bons costumes validados ao longo das décadas e dos
séculos – e pelo nível ético,
responsável pela implantação da decência, da dignidade e do respeito recíproco
que deve vigorar entre os cidadãos. Por sobre todos estes, prevalece o nível estético, no qual o bom, o belo e o benfazejo
coadunam-se no fecho de abóboda que é a espitirualidade laica do ser humano.
Que
assim venha a ser.
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