A VIOLÊNCIA E SUAS
RAÍZES PSIQUIÁTRICAS
Marco Aurélio Baggio
Sonhei
que estava diante de uma mansão sombria. De lá, morcegos voavam. Seres
estranhos, que eu logo identifiquei com demônios, me acenavam sedutoramente. –
Venha cá, Marco Aurélio, que vamos mostrar-lhe a casa por dentro. Você vai
conhecer muita coisa interessante. E nós vamos ensinar-lhe uma porção de
coisas.
Fiquei com medo. Cabreiro, disse que não,
que não! Ia-me afastando. Continuavam convidando-me, com insistência e
suavidade. Permaneci a certa distância prudente, mas a curiosidade prevaleceu.
Parei e voltei. Percebi melhor aqueles seres deformados, tais como gárgulas de
catedrais góticas européias. Estavam escoltados por cães portentosos. Alguma
coisa de estranho e de maligno evolvia daqueles diabos. Suas atitudes
captativas e suas vozes moduladas hipnoticamente me perturbavam. Fiquei
dividido e conturbado. Sabia que não iria, não estava preparado, não tinha
coragem ainda.
-
Não quero ir não!
- Venha – insistiam. - Olhe só quanta coisa boa existe aqui. Tudo parece
confuso, perigoso, mas é só aparência ruim. Se você vier, poderá pôr a ordem
que quiser nas coisas todas. Nós somos demônios poderosos, mas estamos
condenados ao arreveso, à balbúrdia, à pura pulsão, como gostam de dizer seus psicanalistas. Você é ser humano,
muito fraquinho e pouco criador. Mas tem aquilo que nós não temos: a razão, a
capacidade de pôr as coisas em uma seqüência lógica, ordenada, construtiva.
Precisamos desse atributo seu. Nós só sabemos perturbar, estorvar, desmontar.
Venha, venha...
-
Não vou... Não quero ir...
Arranjem outra pessoa pra quebrar seu galho.
-
Que pena!... Se você vier,
poderá ficar imenso, grande, poderoso. Só você pode nos ajudar a dar conta
desta casa. Você é inteligente, sabe o lugar de cada objeto, para que é que
serve, como funciona, sabe fazer as coisas produzirem. Venha! Nós não somos
capazes disso... Nós só sabemos
semear confusão e mexer continuamente aquilo que está condensado.
-
Não... Não adianta me
tentarem, seus capetas! Não quero saber o que há dentro dessa casa não. Tenho
medo.. Tchau!
-
Marco Aurélio, Marco
Aurélio, não nos abandone! Precisamos de sua capacidade de reflexão para pôr
ordem naquilo que fazemos. Sem você, estamos condenados a mutuamente nos
atazanar e a nos infernizar... Vivemos numa cirando louca, improdutiva.
Diabólica...
-
Não, não insistam, seus
capetões. Talvez outro dia...
···
O que há
dentro da casa do corpo do ser humano? Que demônios, morcegos e cães são esses
que o habitam? Como é que, da carne, provém a relação em nível convivencial?
De que é composto o inferus, o soturno e o subterrâneo do ser humano? Como é o seu
inferno? O que é que ele tem que nem ele mesmo quer saber? Foge, evita, arreda
de si.
Os
gregos conceberam o daimon como uma
energia, uma iluminação interior, uma espécie de sopro divino presente no
homem.
Bem
antes deles, os mesopotâmios criaram a noção de espíritos maus, que operavam
próximo do homem ou dentro dele, causando doenças e trazendo desgraças. Aqueles
males da vida que não constituíam grandes catástrofes naturais eram atribuídos
à má influência dos demônios. UTUKKU.
Todos os
povos conceberam demônios para explicar a maldade e a fúria disruptiva que
existe na existência. Espíritos maus invejosos, vingativos, ciumentos,
impiedosos, perseguidores, cruéis, sanguinários e mortíferos precisam ser concebidos e alocados no espaço de concepção externa à pessoa. Dantesca
questão partilhada por todo homem imerso na vida comunitária, é fácil perceber
tratar-se de uma vivência comum, que solicita uma formulação mítica. Crenças e
religiões foram assim propostas. A concepção religiosa acerca do mal e do
desgraçado que pode acometer a todos, a de que uma formulação adequada,
personificada num supra-humano, dotado de avantajado poderio de molestar e
prejudicar os homens é encarada misticamente
por meio de Lúcifer, Demônio, Diabo, Belzebu, Capeta, Lusbel, Satã, Satanás,
Exu. Os 99 nomes do espírito maligno arrolados por Guimarães Rosa ao longo do Grande sertão.
Para Freud, o mal provém da dimensão inconsciente
do aparelho psíquico. A energia da
pulsão sexual é a responsável pela forçação de barra que, por vezes, impele o
sujeito para além de suas conveniências, suplantando o habitual controle
egóico, arremetendo-o ao descomedimento e lançando-o na senda da atuação
psicopatológica.
Para Szondi,12
todos nós temos uma dimensão obscura, sem luz, tosca, caracterizada por uma
carga de más emoções armazenadas, composta de inveja à vontade do outro, ira
derivada do afã de impor-se sobre o semelhante, ânsia desmedida de notoriedade,
vingança implacável diante dos empecilhos que o Outro nos impõe. Inveja,
ambição, vaidade e crueldade, constituem o núcleo do Caim que habita os
internos de cada um de nós, seres humanos. Essa fúria, mal contida, explode em ictus, em acessos, em ataques , em paroxismos.
Definitivamente, o homem não é fácil. O
ser humano não é, naturalmente, bondoso. Tem uma natureza humana própria, dada
posta desde sempre. Não podemos ter ilusões. Lidamos com um animal perigoso.
O
ser humano é uma máquina de quebrar brinquedos, diz Amado Nervo 9:450
O homem é um
animal que se devota diariamente a tornar os outros infelizes, afirma H. L. Mencken. 2:63
Guimarães
Rosa erige toda sua obra no sentido de nos indicar as luzes e as operações
existenciais necessárias para lidar com o lado torvo, mau, arrevesado, de todos
nós. O homem é seus crespos e seus avessos. Ao longo do processo metafísico por
onde percorre Riobaldo, na veredas do Grande Sertão, Rosa se utiliza de noventa
e nove nomes –noventa e nove aparências ou alegorias – do demônio. 10
A cada hora, a cada momento, o ser humano
está tentado a lidar com uma qualidade nova de medo. Medo é a cárie do
psíquico. Medo é anagrama de demo. O tempo todo, nós, Riobaldos, temos de lidar
com as aparições sutis e escabrosas do diabo – medo, angústia, desamparo – que
nos mina, a partir de dentro. Nosso recurso, ensina Guimarães, é:
-
Vau do mundo é coragem!
E reforça: - Vau
do mundo é a alegria!
Coragem para deter o desembestamento da pulsão agressiva que quer
extinguir-se no combate fatal final.
Alegria para contrapor nossa penosa exposição às forças do Xu, do Morcegão, do
Cramulhão, do Tristonho, e superá-las.
Joãozito nos ensina que o
enfrentamento daquilo, diabólico, que brota, arrevesando tudo, de nossos
internos, portanto, do nível biológico, tem de ser combatido no próprio campo,
na rua do biológico, extraindo coragem, ainda que de intensidade variável, de
dentro das próprias entranhas do atentado. E alegria, alegria de amor, conforme
Quelemém.
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente aos
pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém
diz. 10:12
O bruxo da linguagem sabia
também que há um outro nível operativo de eficácia, o nível intelectivo.
Quem se sente responsável
pela palavra ajuda o homem a vencer o mal. 6:84 E reforça, mais
adiante:
No Sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas coisas
são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade
de adivinhar. Nada mais.
As forças biológicas,
incontidas, mal canalizadas são o Mal,
o Grande Satã. 8
A necessidade biológica é nosso cativeiro, diz Camille Paglia.
É ingenuidade desastrosa
achar, como Rousseau e os liberais, que o homem é bom, de uma forma espontânea
e natural.
Não temos mais o direito de
sermos ingênuos e nem de sermos simplistas. A sociedade corrompe o homem na
medida em que é injusta e iníqua, tantas vezes. Mas a maldade humana – e a
violência dela decorrente – não deriva, basicamente, da inserção do homem no
social. Provém, isso sim, do fato de que a condição humana é precária,
transeunte, está em constante confecção, é facilmente resvalável pelo sórdido e
pela corrupção. O homem, sedutível, ouve as cantadas do diabo. Corruptível, tem
na senda do exercício do mal um tentador caminho a percorrer. Às vezes,
esvaziado, ou angustiado, propende à escolha do exercício do mal como opção
vicariante. Luciferina, quando instruída pelo orgulho. Satânica, quando
acicatada pela inveja.
Exagerar narcisicamente o
próprio de sua pessoa, arrogar-se valor superlativo, perder respeito à
integridade do Outro são tentações luciferinas, que arrostam o ser humano ao
pleno exercício do Mal.
Hoje vivemos em um paraíso
de produtos tecnológicos inundantes de nossa cotidianeidade. Há um conforto
afluente para aqueles que souberam captar dinheiro. Há uma generalizada
abundância de alimentos e uma exibição escandalosa de bens de consumo, que
satura de tédio os ricos e instiga a cobiça e reforça o sentimento de
inferioridade dos assalariados.
Por outro lado, vivemos em
um pesadelo moral e social. O mundo apresenta-se como porta de delegacia de
polícia. Tradicionais práticas convivenciais tornaram-se anacrônicas. Conceitos
de conduta ficaram estritos demais para dar conta da pluralidade poliversa de
condutas e de manifestações comportamentais explícitas dos seres humanos. Cada
vez mais homens e mulheres jovens e idosos, sentem-se com poderio suficiente
para experimentar vivências reservadas, até então, para o rei Salomão, para
Luís XIV ou para o Sultão.
Os direitos cresceram. A
conduta amplificou-se. As práticas sociais e convivenciais tornaram-se,
amplamente, não convencionais. No intervalo de
sessenta anos, após a Segunda Guerra Mundial, o mundo mudou e mudou e
continua metamorfoseando-se de maneira até enjoativa, forçando a todos a uma
adaptação jamais satisfatória e nunca concluída.
E sem consolo.
Antes acreditávamos que
havia um sistema: um comando, um establishment,
uma confraria ou uma entidade que, secretamente, dirigia as coisas, no mundo.
Quando não, os cépticos acreditavam que as relações
de produção e a luta de classes
pilotavam um processo histórico de natureza evolutiva, para o bem da
humanidade. Hoje sabemos que nada disso opera com eficácia. Muitos desses
pretensos comandos nem existem. A humanidade é governada por coincidências e
desencontros, desgraças, escândalos, cataclismos geológicos, acasos e
necessidades. E muito desperdício.
A rigor, ninguém sabe como a
vida e os seres humanos funcionam. Os desígnios são impalpáveis, invisíveis. Do
mercado persa caótico da vida, subitamente brota uma nova verdade aceita por
todos surpreendentemente. Práticas repudiadas, de repente passam a ser
preconizadas. Instituições que pareciam sólidas dissolvem-se como torrões de
açúcar. Nações aparecem, fulguram e desaparecem. Povos somem de cena.
Expressões, modas, músicas, gostos, verdades, griffes surgem do nada. Ninguém sabe de onde vieram, para que
vieram. A Bolsa de Valores sobe e desce. Ninguém compreende nada. A capacidade
de previsão dos cientistas é tão fajuta quanto a dos adivinhos. Ridícula em 95%
dos casos.
Para além do racional, do
consciente, do dado e do fato, os fatores operativos na etiologia geral da
causação das coisas são, quase sempre, uma obscuridade.
A vida vai em ondas, como o mar...
Só depois, a posteriori, epimeteicamente, é que
podemos urdir os indícios e, usando o comodismo da lei do comentarista
esportivo, fazemos comentários absolutamente sensacionais e precisos, sobre o
gol já feito. Depois de apurada a eleição, de extraída a seiva, de nascido o
bebê, de imposto o Plano econômico, todos nós somos absolutamente argutos em
descrever a inexorabilidade dos fatos ocorridos. Ninguém previu a queda do Muro
de Berlim. Ninguém ousou supor o desmantelamento do Urso soviético. Ninguém
acreditava, em maio de 94, que o Brasil estivesse entrando em um novo longo
ciclo de dez a quinze anos de oscilação de prosperidade e de crescimento.
Ninguém previu que o desgoverno Lula devastaria o tecido ético da nação
brasileira e se associaria com a pior corja de ditadores estrangeiros
Ninguém prevê as coisas que interessam a todos, e acerta.
Depois de acontecidas as
coisas, é punga: todo mundo sabia. Somos todos ótimos profetas daquilo já
ocorrido.
A maldade surge como um
mal-estar organísmico que acomete, desde dentro, visceralmente, o indivíduo.
Uma ruindade, um aperto. Uma sensação de solidão, de abandono. Ou um vazio, uma
sensação de queda, de aniquilamento. Um afã de prevalecer, uma ânsia de ser
reconhecido, atendido, amado e respeitado é o que objetiva cada ser humano.
Essa maldade, pressentida
rapidamente, atinge níveis insuportáveis, dentro do psiquismo do sujeito.
Ele então lança para fora,
projeta parte candente dessa maldade por sobre o primeiro objeto externo
confiável que se dispuser a receber a depositação de sua maldade.
A maldade está, então,
alocada no Outro: o Outro é que é mau.
Como eu o envenenei de
ruindade, ele, o Outro, irá querer retaliar. Ele está revidando. Ele está me
perseguindo. Me faz mal. Ele me odeia e quer me destruir! Assim, o mal depositado
no Outro retorna dele, de fora, para dentro do próprio sujeito. A maldade
projetada tende a ser recarregada no próprio psiquismo do sujeito. Passa a ser
reconhecida não mais como própria, mas proveniente do perseguidor externo. 1
Ninguém
está a cobro da doideira de si e dos outros. 11:50
O bebê humano é passível de experienciar temores. Ele pode sofrer
angústia inominável, angústia de aniquilamento, agonias inefáveis, na expressão
de Márcio Pacheco.
O terror tem de ser ejetado
para fora do espaço psíquico da criança. E tem de ser contido pelo colo da mãe,
que sustenta a situação e o bebê. Esse terror tem de ser por ela – mãe -
significado. Assim processado, mediante imersão no seio da bondade humana, a
maldade perde sua vertente de animal contundente, brutal. Torna-se,
gradativamente, maldade comum, humanizada, amolgada, vacinada contra maiores
virulências. Terror-pavor-agonia e solidão são forças perturbadoras,
desagregadoras de vivências no psiquismo – são potenciais verdadeiramente
diabólicos.
Acalentados, embalados,
significados, esses medos primevos tornam-se humanizados. Civilizados. Sua
dotação energética é como que aproveitada não mais no sentido da furrupa e da
dispersão infernal das coisas, mas injeta energia nas atividades produtivas que
são o apanágio do modo processo secundário de funcionamento psíquico. Aquilo
que o sujeito faz, como opção pessoal e como eleição de destino, no campo da
consciência, precisa dos aportes econômicos da energia que provém, basicamente,
do inferus, da dimensão endógena –
inconsciente - do próprio ser.
O homem é um ser diabólico,
demoníaco, predador da natureza, invejoso da bondade do irmão, vingativo em
relação a pequenos desaforos que o convívio inevitavelmente impõe a todos nós.
É um animal cruel, capaz de assassinar o semelhante – Caim. Ou de assassinar a
si próprio, num ato brutal de autoextermínio.
Tem dentro de si o germe da
atitude Potlatch, de devastação e de
destruição do patrimônio acumulado, por orgulho e exibição de poderio,
Todos têm dentro de si um
anseio desmesurado de obter proteção por meio de um preposto poderoso agente
externo, que funcione de preferência com as funções-mãe e as funções-pai, ao
longo de toda a vida. Todos querem moleza e preços baixos, ao longo da
travessia existencial.
A liberdade é, talvez, o
mais forte anseio de todo ser humano. 1 Tem sido a conquista máxima
empreendida pelo modo de vida no Ocidente. Mas a observação empírica evidencia
que cada pessoa usufrui certo grau de liberdade e aspira a um certo tanto a
mais. Acima de certo limite, a liberdade é cáustica, enjoativa para cada
indivíduo. Vale dizer, as pessoas não assumem o índice de liberdade possível em
suas existências.
Todo mundo tem dentro de si
o anseio de deter um poder capaz de submeter os outros. A pretensão à
onipotência, para poder proteger-se do desamparo interno e para impor
vassalagem aos outros, é um princípio do mal. Funciona como defesa eficaz
contra o desamparo e a depressão, por um lado, mas santifica o acúmulo de
ressentimentos e de mágoas, além de açodar o desejo de vingança.
A vertente má, diabólica, do
ser humano provém de três fontes principais. A primeira é daimônica, pulsional, constitutiva própria, nem boa nem má: apenas
possibilidade de tudo. A segunda deriva da projeção da primeira sobre as
coisas, os objetos e as pessoas, no mundo externo, tingindo-os de maldade. A
seguir, por efeito rebote, o indivíduo reintrojeta em seu espaço psíquico a
maldade projetada, às vezes de forma até ampliada. Nesse segundo caso, a
maldade provém do outro, transmutado em mau, perseguidor.
A terceira fonte deriva do
imaginário. Sempre que o psiquismo humano é tensionado por fantasmas –
entidades intrapsíquicas compostas de representação enxertada de pulsão,
buscando criar um enredo qualquer – tende a criar seres sobre-humanos, da ordem
de divindades e de demônios. Seres satânicos, espíritos do mal, surgem assim
como entidades concebidas pelos homens e pelos povos, ao longo do tempo – eixo
de sua evolução na Terra. Habitam um outro mundo, aquele da crença, da ilusão e
da fé. Constitui a vertente maligna que as grandes religiões e as práticas
religiosas mais particulares procuram conjurar, mediante procedimentos
apotropaicos, tais como uso de amuletos, emprego de fórmulas conjuratórias,
elaboração de mitos, imposição de ritos, orações, oferenda de sacrifícios
propriatórios e, até, emprego de exorcismos. Para dar conta dessa vertente
abjeta, sórdida, deletéria, maligna, enfim, o indivíduo e o grupo social tem
duas possibilidades. Ou busca aliar-se ao Mal, habilitando-se no exercício de
suas práticas, como no Satanismo, um clássico gesto de identificação com o
agressor. É preferível estar sob a proteção do Diabo a estar sozinho. Antes mal
acompanhado do que só. Quem não tem cão caça como rato: sò e sordidamente. O
ser humano tem horror ao vazio. A alguém, a gente tem de se enturmar. Pois que
seja lá com o diabo que for.
Ou extrai do bobo do corpo o
interno das coragens. Experiencia os acontecimentos da vida, adquirindo empuxo,
testando e incrementando sua hombridade, tornada recurso para enfrentar o mal
que permeia a existência.
Crentes proclamam que Deus
preferiu confeccionar o homem como um ser de travessia, um ser incompleto,
fadado a viver buscando melhor acabamento. Quando passaremos questionar os
inadequados desígnios divinos?
Temos de aceitar essa nossa
condição de fajutice permanente. Aprendendo a extrair daí, dela, esforço de
superação. Ao viver, nós, Riobaldos, cidadãos do sertão do mundo, a certa
altura, pegamo-nos, sem mais nem porquê, apetrechados para convocar o Demônio
para o encontro – Thambos – no nosso
próprio território, nas Veredas Altas. O cristão treme sob o efeito do Thambos – o espanto metafísico provocado
pela convocação do sagrado.13:314 Assim convocado, o demônio por si,
cidadão, solto, não comparece. Não há. Não existe. Existindo, porém. Enfrentada
pelo valor humano, a maldade diabólica esmorece, desmilingüe, torna-se um
chorrilho, um mijo de Pé Preto, uma titica de pato. A maldade é apenas um
pingado de pimenta que o demo joga por
sobre os homens, para mais espertá-los. Dá tempero.
Por que as pessoas hesitam
tanto em enfrentar a maldade própria de suas naturezas humanas?
Por que é que todos não se reúnem para sofrer e vencer juntos, de uma
vez? 10:235
Ao longo dos milênios de
vida civilizada, os povos e as comunidades aprenderam a desenvolver
dispositivos eficazes para conjurar o mal. A maior dessas práticas está dada
pela criação de interdições à absoluta impossibilidade da ocorrência de tudo. A
instauração da Lei tem sido a garantia maior de manejo da maldade humana.
Não matar é a
interdição máxima.
Esse mandato manda parar a
propensão humana a exterminar o semelhante e a si mesmo.
Amar a si mesmo, gostar de
si, para criar um patrimônio de autoestima, de amor, de autoconfiança, necessário
para forjar um repositório de bondade que tampona a acidez cáustica da maldade
é o segundo principal mandato.
Aprendendo a mamar a bondade
do leite materno, o ser humano torna-se menos inquieto, menos mau.
A bondade instalada como uma
fonte que jorra a partir da interioridade da pessoa entorna pelas beiradas e
sobra, fluindo como amor, como dadivosidade, em direção ao outro, ao próximo.
Amar a si mesmo para poder vir a amar o próximo.
O terceiro mandato que a
cultura inteligentemente criou foi o dispositivo de concentrar a tendência
projetiva do psiquismo humano, colhê-los todos numa concepção imaginária de um
ser captador, que funciona como poderosa referência externa a todos os
indivíduos da cultura. Numa concepção mística, este ser receptador das
intenções e dos anseios é chamado Deus. Numa concepção mais prosaica, laica,
esse receptador é o código de valores e de condutas que, dificultosamente, a
cultura erige, ao longo de séculos, decantando lentamente as melhores práticas
sociais. Tem por nome Lei.
Lei vigente na cultura.
Magno articulador de fluxos, de trocas de possibilidades e de restrições.
Postula-se que a interdição
ao incesto tenha sido uma dessas magnas Leis estruturantes das relações
convivenciais e sociais das culturas humanas. A imposição de trocas exogâmicas
e de intercâmbio de mercadorias e de valores é outra prática extremamente
eficaz para lidar e reduzir a maldade.
Cada povo erigiu sua
mitologia, necessária para dar caminho às grandes questões da existência, pois
é necessário sempre erguer um mito de origem do povo. É importante referir-se a
ancestrais poderosos e notáveis que deram origem àquele povo. É preciso
estabelecer relações de parentesco para que não haja um elevado índice de
consangüinidade.
É fundamental estabelecer normas
práticas de convívio para que possa fluir a convivência sem maiores percalços.
É preciso criar um sistema de crenças para dar conta de racionalizar a
estupidez da doença, do cataclismo natural e, sobretudo, é imprescindível
desenvolver uma escatologia acerca da morte e do jamais desistido anseio de vir
a viver uma outra vida além da morte.
Demônios e
violência
A maldade é ínclita à condição do homem.
A maldade provém da inveja ao bem que o outro exibe e detém.
A inveja é o afeto básico vigorante no inconsciente.
Designa a tristeza
sentida diante do bem do outro e do desejo imoderado de sua apropriação, mesmo
indevida. 3:566
Da inveja surge a vaidade de se pretender ser mais do que é.
Dela brota a ambição de impor-se desmesuradamente por sobre o outro.
A inveja lança o indivíduo
na impossibilidade de convívio amistoso com os demais, condenando-o ao horror
da solidão que anseia pelo reconhecimento alheio.
A inveja dá origem a um
furioso drama terrorífico interno.
De noite, na cama, eu faço cafuné nos meus demônios, para eles se
acalmarem –
disse um cliente.
Más emoções armazenadas
podem descarregar-se em ira, em ictus,
em paroxismos. Afã de impor-se. Ânsia de notoriedade. Os afetos toscos,
diafotos, obscuros do homem: seus crespos e seus avessos.
No entanto, o demônio é
aquele que atravessa no meio, principio dissolutor do bem posto, é aquele que
permite o equilíbrio instável da metamorfose contínua da vida, ele é o portador
das tensões contrárias.
O demônio é a força que me impele a ir adiante, em direção à
espiritualidade do Espírito Santo. O demônio, em última análise, é a minha
possibilidade de alcançar o Espírito Santo, expressou-se um cliente.
Dotados de imenso poder
sobre as almas brancas, atraem-nas e trituram-nas. São a poesia do mal.
Deus é certeza. O diabo é a
variedade.
A permissão divina da
atividade diabólica é um grande mistério da fé.
Deus dá e tira a vida. Mas quem ensina mesmo a viver é o demônio. (Mário da Silva Brito) 9:261
Como seres não perfeitos, de meia-confecção,
seres de transição como quis a evolução da espécie, precisamos do demônio de
nossa maldade para não nos fecharmos cedo demais às completudes que estancam
nossas possibilidades de vir-a-ser. Corremos o risco, o tempo todo, de não
sabermos lidar com nossa violência. Dela, não obstante, provém o devir das
coisas novas e interessantes para a expansão de nossa vida.
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