POR QUE O HOMEM MATA A
MULHER ?
Marco Aurélio Baggio
Instruído pela testosterona,
hormônio de projeção por sobre o outro, portador de maior envergadura, com um
terço a mais de peso corporal e dotado de musculatura mais rija, o homem é mais
ativo, mais agressivo, mais forte que a mulher.
Na
relação amorosa, ele arvora-se direitos de posse, de mando, de exclusividade.
Mais frágil emocionalmente, o macho tolera pior as perdas, reage
desastrosamente às rejeições. Não suporta separações abruptas. Tem horror a ser
abandonado.
Seu
narcisismo é mais precário. Atacado, ferido, depletado, reage em
curto-circuito, atua, agride, fere, mata.
Animal
perigoso. Transforma amor em apego e necessidade de suprimento afetivo.
Apegado, não admite ser relegado, abandonado. Se rejeitado, torna-se bruto,
estúpido, disruptivo, destrutivo. “Põe pra quebrar”. Torna-se radical,
absoluto. Furioso.
-
Se não quer ficar comigo, eu a extermino: não
ficará com ninguém.
.Eis o que muitos dizem e
cometem.
Provocado,
espicaçado, malferido, fica ensandecido.
Trocado
por outro, o homem enche-se de ciúmes, de inveja, de rivalidade. Sofre uma
descompensação aguda rm seu precário equilíbrio psíquico, podendo entrar em
curto-circuito mental. É quando então assoma em sua mente um estreitamento de
consciência, ocupando todo seu campo mental com a idéia sobrevalorizada de
rejeição, de traição, de menoscabo e de desvalia, acompanhada do sentimento de desamor,
de menosprezo e de ciúmes. Um gentil e doce Abel romântico torna-se, de
repente, um mal, perverso, invejoso e assassino Caim.
Só
pensa naquilo: foi traído, prejudicado, infelicitado, horrorizado. Reage de
acordo, dentro de um âmbito muito estreito de considerações. Quer porque quer
obter algum tipo de ressarcimento, de consolo, a qualquer custo, de qualquer
jeito. Então agride. Se não obtiver um pronto apaziguamento narcísico, suas
emoções de vingança vão num rápido crescendo, adquirindo características
facinorosas.
Malignizado,
com o diabo no corpo, sob violento estado de estreitamento de consciência, o
homem é possuído pela loucura de querer intrujir sobre quem o abandonou,
forçando a mulher a submeter-se à sua carência. Apavorada, a mulher que foi
capaz de manifestar sua atitude de desapego da relação, entra no clima da
discórdia, luta, revida, esboça resistência.
Isso funciona paradoxalmente, aumentando a fúria do atacante. Está assim
configurado o cenário da tragédia anunciada.
Duas
atitudes assanham a fúria do homem em via de ser abandonado: a reação agressiva
e desafiadora da mulher dá motivo a que o homem veja justificada sua fúria.
Também a expressão de fraqueza e de fragilidade da mulher açula o ataque da
besta-fera. A experiência de vida ensina que, em se tratando da voragem da
separação aguda de parceiros, a melhor atitude por parte do parceiro que quer
ir embora – no caso, a mulher - é uma fria, dura, consistente assertiva
indiferença...
Você
foi saindo de mim
Devagar e para sempre...
Ivan Lins e
Victor Martins.
Se um
terceiro apaziguador não interferir, separando os dois contendores envolvidos a
quente em seu violento conflito, agressões serão cometidas.
Toda a
racionalidade se perde. Todo o respeito desaparece. O amor se transmuta em ódio
e desejo de vingança. Sabe-se que o afeto vingança é quase insaciável: quanto
mais desaforo se faz, quanto mais se vinga, mais se quer vingar. O império do
narcisismo malferido passa a ser preponderante. Quer-se obter uma reparação
radical à metade do ser abandonado que foi perdida pela atitude de separação do
outro.
Você
um dia me disse que me amava. Acreditei em você. E também confessei meu amor
por você! Quem ama se doa e possui o outro. Foi tão difícil encontrar alguém
que me amasse e me fizesse amar... Então, com que direito você me diz,
desabusadamente, que não me quer mais? Não admito que você tome essa atitude.
Mais: não permito que você me deixe. Quero você. Preciso de sua companhia me
dando cobertura e inteireza. Não sou mais eu sem a sua cumplicidade. Você é a
outra metade de mim, que me dá conforto, completude, alegria e identidade.
Ai, ardido peito
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro viril que já perdi
Eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus.
Chico Buarque.
Mata-se
a mulher amada/odiada/imprescindível, num assomo de inveja e de cólera ao
sentir a derrota pessoal na relação a dois. Quem mata é aquele parceiro mais
primitivo, o mais necessitado e que está despreparado para voltar a viver
sozinho, após haver experimentado as excelências da gostosa e plena relação
amorosa. Na maioria das vezes, este parceiro mais tosco é o homem.
A
mulher mata seu parceiro amoroso, mais frequentemente, como reação aos maus
tratos e aos espancamentos que sofre dele.
O
homem mata a tiros ou a pancadas. A mulher mata à traição, com faca ou machado.
Ou com veneno. Ou com vidro moído na refeição.
O que
não se admite, por ser uma das dores psíquicas mais intensas, é ser abandonado
como um cão sem dono, exatamente por quem, até há pouco, propiciava-lhe o
glorioso sentimento de que “eu sou o máximo!”.
A
vivência do amor, por dois compartido, é uma das mais ricas possibilidades de
vida de todos nós.
Eu faço samba e amor até mais tarde
Tenho muito sono de manhã.
..............................................................
De madrugada a gente ainda se ama.
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna nossa cama
Reclama
Do nosso eterno espreguiçar.
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
No colo da bem-vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação.
Samba e amor.
Chico Buarque de Hollanda.
CD Tanto tempo. Bebel Gilberto. Manaus. Zirigiboom. 2000.
Como
quase tudo na vida, o amor obedece a uma seqüência de etapas: surge fulgurante,
desabrocha, expande, cresce, atinge um cimo, estabiliza, evolui e dura,
desgasta, decresce, fenece, estiola e acaba. Ninguém tem garantia de perenidade
nas relações amorosas.
O amor
quando acaba é a coisa mais triste que há. Os homens são, como sexo emocionalmente
mais frágil, suas maiores vítimas. Ser vítima é uma arma quente e ferina. Os
parceiros amorosos só toleram se separar dignamente quando percorrem as várias
etapas do luto que descrevi em “O
processo de exaustão de uma relação a dois”, no meu livro Música Popular Brasileira: os conscertos da
vida. Campinas: Psy, 1996. Lá esta esquematizado as etapas evolutivas do
perecimento da relação amorosa. A saber:
1.
A
vivência de incompletude.
2.
O
encontro.
3.
Sondagem.
4.
Idílio.
5.
Encanto.
6.
Cotidiano.
7.
Constatação
de que a relação vai mal.
8.
Tentativa
para consertar.
9.
Ressentimento
ou vingança.
10.
Derrota
pessoal.
11.
Desistência
da relação e convicção do término da mesma.
12.
Recuperação
narcísica integral da mesmidade.
É quando cada qual pode
cantar, dolorido mas exultante:
Devolve ao meu peito
Um velho coração
Que sempre foi só seu
Agora, meu amor, entre nós dois
Eu sou mais eu.
Zizi Possi. LP Zizi Possi. Eu sou
mais eu. Xixa Mota. Rio, 1980.
O que vai permanecer de bom
depois de um percurso bem percorrido de separação amorosa é a nostálgica
lembrança:
Ah, mas há que se louvar
Entre
altos e baixos
O amor quando traz
Tanta vida
Que até pra morrer leva tempo demais.
Sueli Costa.
LP Louça fina. Altos e
Baixos. Sueli Costa e Aldir Blanc, Rio, 1979.
Quando um dos dois se atrasa
nesse processo ou, pior, quando um se tresmalha do caminho, a subtaneidade da
separação abrupta pode funcionar como estopim para a baixaria ou para o crime.
Se o que eu disse é correto
e explica uma grande parcela dos móveis de um crime passional, quero deixar
claro que não pretendo que esta compreensão sirva, absolutamente, como
atenuante à sanção que a justiça deve aplicar ao criminoso. A vida adulta
oferece liberdade às pessoas para lidar com veículos, com negócios e com
relações humanas – familiares, sociais ou amorosas – com competência e
responsabilidade.
Cada um deve ser sancionado
em correspondência à sua falha e à sua falta. O crime passional cometido sob
forte emoção ou em defesa de uma abstrata “honra” não merece nenhuma atenuação
penal. No máximo, deve servir a cada um de nós de exemplo para não ser seguido.
Talvez comporte, de nós, apenas uma gota de compaixão.
O sétimo é o maior e o mais
absoluto mandamento da Lei:
-
Por tudo aquilo que te fizerem, não tens o direito
de matar.
-
Nada
justiça o assassinato. Portanto, homem que mata mulher, mulher que mata homem,
amantes que se matam devem ser rigorosa e implacavelmente punidos. Sem
contemplação. Só assim coibriremos e reduziremos a incidência de crimes
passionais no futuro.
O
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social que, breve, irá financiar
cirurgias plásticas, deveria também criar um linha de crédito para possibilitar
acesso a tratamento psiquiátrico aos amantes que entram em processo de
dissensão.
Matar
é burrice. É exterminar a preciosa vida do outro e degenerar a própria vida.
Ninguém pode arvorar-se de dono e proprietário de outrem. Quando um já não
quer, dois não mais namoram nem permanecem juntos.
Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa...
canta o samba-canção exemplarmente.
Se amar é juntar e
enriquecer a dois, separar é perder e empobrecer em 60% o acervo convivencial
que já não é mais comum de dois. Se amar foi sua ruína, você desfrutou das
delícias enquanto pôde e há de arcar com as consequências depletadoras da
separação.
Sem se
desproduzir. Sem desatinar e sem enlouquecer.
Loucura
é luxo existencial.
Se
tiver de gastar dinheiro e sofrer perdas patrimoniais ao longo do processo de
separação, isso estava implícito no começo do jogo amoroso. Não há o que recalcitar.
Não
matar é o principal interdito que viabiliza a vida em sociedade.
“Babão”
e “Rodriguinho” se conheceram em uma favela. Trocaram armas: “Babão” cedeu um
revólver bacana em troca de dois outros usados. No entanto, “Babão” retirou a
mola do gatilho. Quando “Rodriguinho” percebeu que o revolver não atirava,
reagiu, naturalmente, com raiva. Durante semanas, buscou uma compensação,
ficando atrás de “Babão”. Andou falando em vingança, em morte, esses
desaforos... Culpado, com medo, “Babão” viu “Rodriguinho” assentado no chão,
junto a um muro. Chegou perto e descarregou o revólver em “Rodriguinho”, 20
anos. Depois, calmamente, recarregou a arma e despejou mais bala. Um crime
banal. Dele extrai-se a óbvia lição:
Se
você lesa o outro em uma transação qualquer, você o terá como fiel perseguidor
no seu encalço. Se você faz mal a alguém, por maldade ou má-fé, está criando o
caldo de cultura propício ao crime, à dor e à tragédia.
É mais
vantajoso que toda transação humana seja lisa, correta, desempenada e
transparente para não deixar “gancho”, não criar ranço e não dar motivo a
querelas.
Por
que os seres humanos querem tirar vantagem em tudo e agem de maneira tão
leviana, se foram feitos à imagem e à semelhança do Senhor das Esferas?
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