terça-feira, 20 de agosto de 2013

POR QUE O HOMEM MATA A MULHER ?


POR QUE O HOMEM MATA A MULHER ?

 Marco Aurélio Baggio

                                                                                              

         Instruído pela testosterona, hormônio de projeção por sobre o outro, portador de maior envergadura, com um terço a mais de peso corporal e dotado de musculatura mais rija, o homem é mais ativo, mais agressivo, mais forte que a mulher.

         Na relação amorosa, ele arvora-se direitos de posse, de mando, de exclusividade. Mais frágil emocionalmente, o macho tolera pior as perdas, reage desastrosamente às rejeições. Não suporta separações abruptas. Tem horror a ser abandonado.

         Seu narcisismo é mais precário. Atacado, ferido, depletado, reage em curto-circuito, atua, agride, fere, mata.

         Animal perigoso. Transforma amor em apego e necessidade de suprimento afetivo. Apegado, não admite ser relegado, abandonado. Se rejeitado, torna-se bruto, estúpido, disruptivo, destrutivo. “Põe pra quebrar”. Torna-se radical, absoluto. Furioso.

-         Se não quer ficar comigo, eu a extermino: não ficará com ninguém.

.Eis o que muitos dizem e cometem.

         Provocado, espicaçado, malferido, fica ensandecido.

         Trocado por outro, o homem enche-se de ciúmes, de inveja, de rivalidade. Sofre uma descompensação aguda rm seu precário equilíbrio psíquico, podendo entrar em curto-circuito mental. É quando então assoma em sua mente um estreitamento de consciência, ocupando todo seu campo mental com a idéia sobrevalorizada de rejeição, de traição, de menoscabo e de desvalia, acompanhada do sentimento de desamor, de menosprezo e de ciúmes. Um gentil e doce Abel romântico torna-se, de repente, um mal, perverso, invejoso e assassino Caim.

         Só pensa naquilo: foi traído, prejudicado, infelicitado, horrorizado. Reage de acordo, dentro de um âmbito muito estreito de considerações. Quer porque quer obter algum tipo de ressarcimento, de consolo, a qualquer custo, de qualquer jeito. Então agride. Se não obtiver um pronto apaziguamento narcísico, suas emoções de vingança vão num rápido crescendo, adquirindo características facinorosas.

         Malignizado, com o diabo no corpo, sob violento estado de estreitamento de consciência, o homem é possuído pela loucura de querer intrujir sobre quem o abandonou, forçando a mulher a submeter-se à sua carência. Apavorada, a mulher que foi capaz de manifestar sua atitude de desapego da relação, entra no clima da discórdia, luta, revida, esboça resistência.  Isso funciona paradoxalmente, aumentando a fúria do atacante. Está assim configurado o cenário da tragédia anunciada.

         Duas atitudes assanham a fúria do homem em via de ser abandonado: a reação agressiva e desafiadora da mulher dá motivo a que o homem veja justificada sua fúria. Também a expressão de fraqueza e de fragilidade da mulher açula o ataque da besta-fera. A experiência de vida ensina que, em se tratando da voragem da separação aguda de parceiros, a melhor atitude por parte do parceiro que quer ir embora – no caso, a mulher - é uma fria, dura, consistente assertiva indiferença...

 

          Você foi saindo de mim

         Devagar e para sempre...

Ivan Lins e Victor Martins.

 

         Se um terceiro apaziguador não interferir, separando os dois contendores envolvidos a quente em seu violento conflito, agressões serão cometidas.

         Toda a racionalidade se perde. Todo o respeito desaparece. O amor se transmuta em ódio e desejo de vingança. Sabe-se que o afeto vingança é quase insaciável: quanto mais desaforo se faz, quanto mais se vinga, mais se quer vingar. O império do narcisismo malferido passa a ser preponderante. Quer-se obter uma reparação radical à metade do ser abandonado que foi perdida pela atitude de separação do outro.

 

          Você um dia me disse que me amava. Acreditei em você. E também confessei meu amor por você! Quem ama se doa e possui o outro. Foi tão difícil encontrar alguém que me amasse e me fizesse amar... Então, com que direito você me diz, desabusadamente, que não me quer mais? Não admito que você tome essa atitude. Mais: não permito que você me deixe. Quero você. Preciso de sua companhia me dando cobertura e inteireza. Não sou mais eu sem a sua cumplicidade. Você é a outra metade de mim, que me dá conforto, completude, alegria e identidade.

        

Ai, ardido peito

         Oh, pedaço de mim

         Oh, metade arrancada de mim

         Oh, metade amputada de mim

         Leva o que há de ti

         Que a saudade dói latejada

         É assim como uma fisgada

         No membro viril que já perdi

         Eu não quero levar comigo

         A mortalha do amor

         Adeus.

Chico Buarque.

 

         Mata-se a mulher amada/odiada/imprescindível, num assomo de inveja e de cólera ao sentir a derrota pessoal na relação a dois. Quem mata é aquele parceiro mais primitivo, o mais necessitado e que está despreparado para voltar a viver sozinho, após haver experimentado as excelências da gostosa e plena relação amorosa. Na maioria das vezes, este parceiro mais tosco é o homem.

         A mulher mata seu parceiro amoroso, mais frequentemente, como reação aos maus tratos e aos espancamentos que sofre dele.

         O homem mata a tiros ou a pancadas. A mulher mata à traição, com faca ou machado. Ou com veneno. Ou com vidro moído na refeição.

         O que não se admite, por ser uma das dores psíquicas mais intensas, é ser abandonado como um cão sem dono, exatamente por quem, até há pouco, propiciava-lhe o glorioso sentimento de que “eu sou o máximo!”.

         A vivência do amor, por dois compartido, é uma das mais ricas possibilidades de vida de todos nós.

 

         Eu faço samba e amor até mais tarde

         Tenho muito sono de manhã.

         ..............................................................

         De madrugada a gente ainda se ama.

         E a fábrica começa a buzinar

         O trânsito contorna nossa cama

         Reclama

         Do nosso eterno espreguiçar.

 

         Não sei se preguiçoso ou se covarde

         Debaixo do meu cobertor de lã

         Eu faço samba e amor até mais tarde

         E tenho muito sono de manhã

 

         No colo da bem-vinda companheira

         No corpo do bendito violão

         Eu faço samba e amor a noite inteira

         Não tenho a quem prestar satisfação.

 

Samba e amor.

Chico Buarque de Hollanda. CD Tanto tempo. Bebel Gilberto. Manaus. Zirigiboom. 2000.

 

         Como quase tudo na vida, o amor obedece a uma seqüência de etapas: surge fulgurante, desabrocha, expande, cresce, atinge um cimo, estabiliza, evolui e dura, desgasta, decresce, fenece, estiola e acaba. Ninguém tem garantia de perenidade nas relações amorosas.

         O amor quando acaba é a coisa mais triste que há. Os homens são, como sexo emocionalmente mais frágil, suas maiores vítimas. Ser vítima é uma arma quente e ferina. Os parceiros amorosos só toleram se separar dignamente quando percorrem as várias etapas do luto que descrevi em “O processo de exaustão de uma relação a dois”, no meu livro Música Popular Brasileira: os conscertos da vida. Campinas: Psy, 1996. Lá esta esquematizado as etapas evolutivas do perecimento da relação amorosa. A saber:

        

1.     A vivência de incompletude.

2.     O encontro.

3.     Sondagem.

4.     Idílio.

5.     Encanto.

6.     Cotidiano.

7.     Constatação de que a relação vai mal.

8.     Tentativa para consertar.

9.     Ressentimento ou vingança.

10. Derrota pessoal.

11. Desistência da relação e convicção do término da mesma.

12. Recuperação narcísica integral da mesmidade.

 

É quando cada qual pode cantar, dolorido mas exultante:

        

                  Devolve ao meu peito

                  Um velho coração

                  Que sempre foi só seu

                  Agora, meu amor, entre nós dois

                  Eu sou mais eu.

                           Zizi Possi. LP Zizi Possi. Eu sou mais eu. Xixa Mota. Rio, 1980.

O que vai permanecer de bom depois de um percurso bem percorrido de separação amorosa é a nostálgica lembrança:

 

                  Ah, mas há que se louvar

                  Entre altos e baixos

                  O amor quando traz

                  Tanta vida

                  Que até pra morrer leva tempo demais.

Sueli Costa. LP Louça fina. Altos e Baixos. Sueli Costa e Aldir Blanc, Rio, 1979.

 

Quando um dos dois se atrasa nesse processo ou, pior, quando um se tresmalha do caminho, a subtaneidade da separação abrupta pode funcionar como estopim para a baixaria ou para o crime.

Se o que eu disse é correto e explica uma grande parcela dos móveis de um crime passional, quero deixar claro que não pretendo que esta compreensão sirva, absolutamente, como atenuante à sanção que a justiça deve aplicar ao criminoso. A vida adulta oferece liberdade às pessoas para lidar com veículos, com negócios e com relações humanas – familiares, sociais ou amorosas – com competência e responsabilidade.

Cada um deve ser sancionado em correspondência à sua falha e à sua falta. O crime passional cometido sob forte emoção ou em defesa de uma abstrata “honra” não merece nenhuma atenuação penal. No máximo, deve servir a cada um de nós de exemplo para não ser seguido. Talvez comporte, de nós, apenas uma gota de compaixão.

O sétimo é o maior e o mais absoluto mandamento da Lei:

 

-         Por tudo aquilo que te fizerem, não tens o direito de matar.

-         Nada justiça o assassinato. Portanto, homem que mata mulher, mulher que mata homem, amantes que se matam devem ser rigorosa e implacavelmente punidos. Sem contemplação. Só assim coibriremos e reduziremos a incidência de crimes passionais no futuro.

         O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social que, breve, irá financiar cirurgias plásticas, deveria também criar um linha de crédito para possibilitar acesso a tratamento psiquiátrico aos amantes que entram em processo de dissensão.

         Matar é burrice. É exterminar a preciosa vida do outro e degenerar a própria vida. Ninguém pode arvorar-se de dono e proprietário de outrem. Quando um já não quer, dois não mais namoram nem permanecem juntos.

 

         Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa...

canta o samba-canção exemplarmente.

 

Se amar é juntar e enriquecer a dois, separar é perder e empobrecer em 60% o acervo convivencial que já não é mais comum de dois. Se amar foi sua ruína, você desfrutou das delícias enquanto pôde e há de arcar com as consequências depletadoras da separação.

         Sem se desproduzir. Sem desatinar e sem enlouquecer.

         Loucura é luxo existencial.

         Se tiver de gastar dinheiro e sofrer perdas patrimoniais ao longo do processo de separação, isso estava implícito no começo do jogo amoroso. Não há o que recalcitar.

         Não matar é o principal interdito que viabiliza a vida em sociedade.

 

 

         “Babão” e “Rodriguinho” se conheceram em uma favela. Trocaram armas: “Babão” cedeu um revólver bacana em troca de dois outros usados. No entanto, “Babão” retirou a mola do gatilho. Quando “Rodriguinho” percebeu que o revolver não atirava, reagiu, naturalmente, com raiva. Durante semanas, buscou uma compensação, ficando atrás de “Babão”. Andou falando em vingança, em morte, esses desaforos... Culpado, com medo, “Babão” viu “Rodriguinho” assentado no chão, junto a um muro. Chegou perto e descarregou o revólver em “Rodriguinho”, 20 anos. Depois, calmamente, recarregou a arma e despejou mais bala. Um crime banal. Dele extrai-se a óbvia lição:

         Se você lesa o outro em uma transação qualquer, você o terá como fiel perseguidor no seu encalço. Se você faz mal a alguém, por maldade ou má-fé, está criando o caldo de cultura propício ao crime, à dor e à tragédia.

         É mais vantajoso que toda transação humana seja lisa, correta, desempenada e transparente para não deixar “gancho”, não criar ranço e não dar motivo a querelas.
         Por que os seres humanos querem tirar vantagem em tudo e agem de maneira tão leviana, se foram feitos à imagem e à semelhança do Senhor das Esferas?

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