Porque o Mal
MARCO AURELIO BAGGIO
Começamos como não-ser. Uma mera matriz
inicial indiferenciada. Massa amorfa de recém nascido. Nasce animal furioso,
voraz, cheio de urina, fome, fezes e fúria, a exigir cuidados. Inexiste como
positividade. Mãe doa, cuida, limpa, nutre, compassa, faz aflorar o sorriso, o
bem estar, o bom humor. Nasce esplêndido o bebê luminoso, querido. Mãe é o
agente cultural que inverte a flecha mortífera do mal estar, do mal ser. A
criança passa a existir. Cada vez usufrui maiores tempos e beneplácitos. Entra
no mundo onde os contrários são separados e resolvidos. E conviventes. A
criança entra em processo de desenvolver seus cabedais, de seus potenciais
psicoevolutivos. Passa a viver em estado de alegria. Caminha de uma perfeição
menor rumo a uma perfeição maior, mediante feitos e atravessamentos de
conflitos e superação de impasses.
A presença do Mal no homem, na Terra,
está no livro de Platão: Teeteto.
Nele, Sócrates avalia o mal percorrendo sua ronda aqui no mundo. Peripolei: Circularidade. Redemoinho.
Compulsão à repetição. Polei –
espírito do mal. O mal é incapaz de criar algo de novo, de positivo. Está
sempre interpolando, interferindo, intrusivo que é. Falsificando a criação (de deus),
do homem. O mal é o cisalhador-dispersor da inteireza do ser. Quebra. Separa.
Corta. Perturba. Avacalha. Despedaça em diasparágmos. O mal não tem miolo,
ensina Guimarães Rosa. Ele não tem consistência em si mesmo. Vige na ausência
do Bom. O mal só supura a olhos impuros. O mal está só esperando a chegada do
Bem, para ocupar seu lídimo lugar. O mal vigora e prevalece nos interstícios da
vida do sujeito que ainda não foram ocupados pelo Bom.
O mal é a injustiça em si, por antinomasia.
É o causador da incompletude, gerador da insatisfação, fautor do desacerto e do
desencanto.
A justiça é a vigência da boa ordem das
várias partes constituintes da psique humana.
O espírito do mal é interpolador,
incapaz de criar, mas sempre pronto a interpolar, a falsificar a criação de
Deus.
O mal é movimento em circularidade
fátua, não criativa. É vórtice, voragens, redemoinho, tornado, ciclone, tufão,
furacão.
Justiça implica retidão de ordem na
disposição interna do homem. Os poderes biológicos pulsionais inferiores do
homem: o inconsciente e o irracional. (sentimentos, afetos, paixões), devem ser
subordinados aos poderes psíquicos mais diferenciados, nobres e superiores do
homem: a lógica, a razão, o pensamento, o juízo, a vontade, a memória. Do caos,
da selva escura, sem luz e sem direção mediante uma condição ordenadora – o
deleitoso regaço materno, verdadeiro Jardim de Delícias -, o ser criança evolui
para a luz do sorriso, a visão da boa forma do rosto materno em esplêndida
satisfação, ao caminho bom indicado pelo par parental.
Justiça é harmonização de demandas e
das virtudes de Fortaleza, Temperança e Prudência.
O Brasil falha na viagem. Na travessia que seus filhos
tem que empreender. Não há uma paidéia
grega. Não há uma Bildung germânica.
Carecemos de uma formação de cidadãos, de um treinamento de vontades bem escolhidas.
As
pessoas não se justificam:
O
que você faz?
O
que você vale?
O
que você produz?
O
que você oferece ao país?
Quem
você é?
As
respostas são que as pessoas não passam de:
Mero
consumidor
Usuário
Espectador
do jogo social.
Perdemos a fôrma de confecção de gente.
Não sabemos mais como formar pessoas. Pessoa é aquele capaz de dizer, cheio, -
EU! A individuação de cada um de nós é feita/elaborada através de lutas
pessoais intermináveis.
Quase não há mais GRAÇA (bem doado,
diversão e virtude) em viver.
O Brasil trai seu povo: comete o
pecado, mantém a de não indicar meios, modos e comportamentos desejáveis para o
bem comum.
“Auriverde pendão da minha terra
Que a brisa do Brasil beija e balança:
Deixa estar sendo roto
Por um ilimitado senso de liberdade
Até ficar esfrangalhada a bandeira
E o campo de convivência da
nacionalidade.”
Não é bom. Não é belo. Não é
conveniente. Não é legítimo. Compromete o futuro e avacalha, interpola o presente.
Renega nosso passado de esperanças. O país do futuro, disperso, esmolambado,
chegou ao futuro e é esse presente de má qualidade que se nos apresenta agora.
Em nossa História, haviam inscritas
várias possibilidades de futuro. Cômoda e incautamente, deixamos que nos
escolhesse esse futuro que agora chegou, presente. E que, definitivamente, não
é o melhor dos futuros que nos eram possíveis:
Precisamos, urgente, querer pensar e
conceber um futuro que seja abarcante em decência, em igualdade e em dignidade.
Cada ser humano tem que voltar às
fontes interiores de si mesmo das quais ele começa sua deliverance, seu
nascimento e sua iniciação, para empreender o aprendizado de vida – a Mökska - sua gradativa realização como
sujeito a si mesmo, até alcançar a plenitude de seu desempenho como cidadão
prestante.
Sem esforço, sem disciplina, não se
forja o raio claro ordenador que, regido pelo princípio da razão suficiente,
deixa solto e desamarrado o mundo pululante do estranho, do misterioso, do
inquietante e do mal.
“; guardei, tudo quanto há com nome me
?”
Por isso é que sabemos ser necessário
haver um consistente movimento de ordenação dos vários componentes da psique
(alma) humana. Para que o sujeito adquira coalizão, gã, inteireza e
consistência só assim apetrechado poderá produzir desempenhos supremadores.
Nego do cabelo duro
Qualé o pente que te penteia?
Guimarães Rosa, por exemplo,
consistia-se como médico, como rebelde e como soldado. E “queria acrescentes
que configuram meu mundo (interior) a diplomacia, o trato com cavalos, vacas,
religiões e idiomas.”
De que consiste hoje, aqui, agora, seu
mundo interno povo brasileiro? De babaquices, de fatualidades, bobices. Sim, de
penduricalhos celulares que o carregam para fora de sua pessoalidade. E você
vai, cordeiro e tolinho...
É a boa ordem dos componentes do
indivíduo, devidamente articuladas e engraxadas, que o justifica enquanto
sujeito/pessoa. Nasce-se do informe para adquirir as formas apropriadas.
A pulsão erótica de vida ao tornar-se
de desejo que amplia sua completude, para o mundo externo – campo de caça e de
captura do objeto anelado. Ao faze-lo, o desejo do sujeito elege a razão como
via mais econômica e mais propícia. Usa o intelecto que instrui o interesse até
torna-lo vontade. Ações humanas são, portanto, aqueles em que se exerce a
vontade. O Bem do apetite inteligente da vontade cria a verdade própria para a
pessoa.
O caos, a amargura e a barbárie geram
cerque típicas sociedades, incipientes e desarticuladas, que pouca cultura
fazem e quase não deixam traços e feitos na História. Grupos sectários
religiosos fundamentalistas metidos em guerras e em terrorismo nada criam de
novo. Nem estruturam sociedades.
Bando de bandidos, ganges de gangetus,
quadrilhas de malfeitores circulam no círculo de ferro da lei de Talião: “olho
por olho, dente por dente.” Nessas mini sociedades bandoleiras, vigora a Lei da
Selva, a Lei do mais forte, a Lei dos peixes Matsyanyaya. O peixe maior devora
o menor.
Ai vigora a impiedade da Lei que reza:
“Quem pode mais chorará menos.”
A Lei do mundo-cão abrange a diversidade
de condutas perversas e pulverizantes. Sendo que delas edifica normas
sustentadoras de acordo de negócios consistentes. Se pode-se ganhar muito
dinheiro, prestígio, poder, bens e notoriedade, pode-se perder tudo – e até
mais – de repente, de uma vez. É o que termina acontecendo...
Raramente a bandidagem compensa e
prevalece. No bando é cada um por si. Todos traem e todos são traídos. Todos
ofendem e matam ou são mortos. Não se pode confiar uns nos outros. não há
lealdade. Não há sorriso. Há apenas interesses emergentes, circunstanciais e
busca desempenhada de prazeres. Ao cabo de todas as peripécias de um drama,
tudo dá soma zero. E tem-se que recomeçar de novo. Não há crescimento pessoal,
não há avanço nas relações com os parceiros. Não se comete um acordo e este é
sustentado até beneficiar as partes. Uma delas trai, rompe o acordo pois a
avidez e a ganância fazem querer tudo para si. Voracidade essa que termina em
indigestão. Se não há respeito pelo direito e pelo interesse do outro, deve
mata-lo por que senão ele passará a viver sob a cutilada da vingança que, um
dia, irá exceder, em retaliação.
Círculo mortífero preso a ferros. Todos
são contra todos. O homem é o predador, o lobo do homem. O bando endogânico
devora a si próprio, um a um, caindo como bananas de um cacho.
Assim, não se acordo, nem norma mínima
Lei acatada por todos com vista a objetivos maiores. Não se exige, portanto,
nem sociedade nem cultura diferenciada. A barbarização puxa o Ethos civilizado
rumo à regressão, mergulhando no primitivo e no indiferenciado. A Lei do mais
forte isola o poderoso numa redoma de e o obriga a cometer inonimáveis
baixarias. A principal delas sendo o assassinato sucessivo dos competidores.
Jesus de Nazaré já advertia: “Quem com
a espada fere, com a espada será exterminado.”
Nas sociedades bandidas, a aquisição do
dinheiro costuma ser o único articulador das relações. A vida humana, nesses
cenários, vale uma bagatela.
É por isso que a violência exercida
contra a sociedade desestruturada, civilizada, custa um enorme preço em
prejuízos que causa. A violência desgasta os anônimos, inibe as boas
iniciativas, amedronta-se os cidadãos e onera os crestos gerais.
Isso porque quando descumprimos leis,
perdemos o rumo da realidade central.
Ocorre uma pessimização geral no Tônus da sociedade, acarretando em infelicitação abrangente que transparece em índices maiores de doenças psicossomáticas, de acidentes, de suicídios, de depressões as mais extravagantes, em meio a uma irritação e a uma inquietude que acomete a todos generalizadamente.
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