Considerações de Marco
Aurélio Baggio.
Marco Aurélio Baggio
A política hoje, no Brasil, tornou-se a arte da
canalhice possível. País meandroso, melindroso, dotado de uma sociedade
leniente, cheia de advogados acoitados e beneficiados em defender e isentar a
delinquência, a corrupção e o crime. Tal sociedade dispõe de uma poderosa e
onipresente mídia eletrônica, cuja principal tarefa tem sido propalar as ações
delituosas que a cada dia chegam nessa grande delegacia de polícia que se
tornou o Brasil. Parece que, para a imprensa, só interessa a bandidagem e a
bandalheira que vigora em nosso alcandorado país. Notícias decentes, ações
justas, atitudes nobres, atos produtivos, comportamento correto? Nem pensar:
Parece que não tem consistência nem nobreza para se tornar notícia.
Ações malignas são camuflagem, formações reativas,
passagem ao ato delinquente para negar a precariedade e a insuficiência a-ser
do sujeito. A posse de armas “de defesa” constrói as portas que contém os
arsenais da maldade.
As drogas de curtição dissolvem os
nobres contensores éticos presentes no psiquismo de um indivíduo até então
decente.
O assassinato mora no coração do homem. Por isso, o
quinto é o mais sério e legítimo impedimento a ser inculcado no psiquismo de
cada ser humano: Não matar.
E, no entanto, só no século XX,
trezentos milhões de pessoas foram assassinadas. O homem é o predador do homem.
Faltando o amor anelado, o ente perde o talante, enche-se de mal-estar, quase
afoga-se, daí atua, desembesta e torna-se mal feitor. O mal deriva da
precariedade e da insuficiência do ser não-querido pelos pais e pela sociedade,
ser repudiado, rejeitado, abandonado, lançado no sofrimento de não tornar-se
aquilo que se quis.
Na falta do predomínio do Bem,
proveniente do colo ditoso que o nutre com o leite da bondade humana
surge/aflora o pulsional do animalzinho besta-fera que somos, com sua
fantasmagoria macabra proveniente de sua dimensão inconsciente fundante. A ausência da bondade reiterada e
sustentada, destampa a caixa de maldades, sempre presente no psiquismo humano.
Animal cujo psiquismo foi forjado
nas cruas emoções tenebrosas de luta e de fuga, milênios atrás, vivenciando
emoções de pavor, de inermidade, sempre a beira de vir a ser engolfado e
devorado pelo predador, os seres humanos tem cravado em seu psiquismo a
impiedade que vigora na natureza: o peixe maior devora o menor: Matsyanyaya.
Como antídotos, busca-se a ilusão da onipotência e a
negação da fragilidade, ao encontrar o dinheiro fácil, a droga de curtição, o
exercício do poder maligno e da posse de arma. A assunção da ascendência e do
poder mantém o equilíbrio instável que sustenta o longo arco da vida do
homem.
Seres humanos são pura fereza, agindo em princípio,
com estupidez e ignorância. Seres humanos são indóceis ao comando. Refratários
à exortação para o bom proceder. Homens são seres irascíveis, impulsivos,
néscios, imprudentes e irritáveis. São egoístas. Maus por natureza.
Muitos seres humanos tem gosto em
praticar o mal, em infligir o mal ativo por pura perversidade sobre os seus
semelhantes. Certa porção dos homens é movida, biologicamente, com a dotação
malévola do diafoto Caim. São cainitas. Para esses, o que vigora é a
necessidade de se impor sobre o outro, necessidade de obter prestígio ainda que
sem méritos. A sede de poder
para impor-se sobre os demais é o demônio do homem. O cérebro humano é uma
organização muito defeituosa e debilitada. Há defeito genético de confecção no
aparelho psíquico humano.
Nossa biologia mostra que somos um réptil caudado até
os cinco meses de gestação. Esse réptil primitivo aflora, facilmente, quando
temos motivo para sentir medo.
A natureza humana é fereza: bestial. Solta, por si,
gera guerra, escravidão, corrupção, exploração, abuso sem limite. A natureza
humana em liberdade, de rédeas soltas, dá vazão às más paixões e a torpeza,
acarretando a licença, a anarquia, até o caos. A escravidão, a corrupção, o
crime, o tráfico de armas, a troca de favores e de influências que criam
privilégios indecentes, o vício em droga psicodisléptica de curtição, esse
conjunto de mau proceder é como um desses venenos que se infiltram como
perfume, encarnando no sujeito como acendrado egoísmo. Logo se torna hábito,
prática corriqueira, altaneira e contumaz. Os seres humanos costumam ser
renitentes e reincidentes naquilo que mal versam. A liberdade indócil e
disruptiva só é domada pela própria desgraça. No subsolo das paixões indômitas,
tudo é permitido, desde que seja mantida as aparências, e as conveniências de
ocasião. A hipocrisia é a calda
que sustenta e preserva as más práticas, escondendo-as do azar da denuncia. É
assim que a sociedade mergulhou em um mar de equívocos e de desacertos,
desencaminhando-se pela trapaça, pela droga de curtição, pelo excesso de
velocidade, pela corrupção desabrida. Criamos massas de população abandonadas,
ao léu, metidos em clima de acelerada dessocialização. Surgiram bandos bandoleiros que criam industrias do
crime, escoltadas pela enxurrada de precatórios e de liminares da impunidade.
Acrescente-se ainda o que não
sabíamos: o mercado é cego e iníquo e obedece a Lei dos Talentos: “aquele que
mais tem, terá acrescentado em sua pecúnia; ao que pouco tem, até esse pouco
lhe será tirado.”
A desregulamentação abrupta, sem
prudência, acarreta imediata dissolução de todo limite ético.
O capitalismo globalizado exibe
acintosa profusão de fascinantes bens de consumo, nas ruas e nas vitrines,
excitando o desejo consumista daqueles, milhões, “que vêem com os olhos e
lambem com a testa”. O mercado de trabalho global produz mais perdedores, mais
fracassados que ganhadores. A exclusão social tornou-se o produto mais
difundido em nossos tempos, com sua coorte de pobreza, favelização,
desestruturação familiar, devastação ambiental, violência e aumento exponencial
da população carcerária jovem. “Meu cartão de crédito é uma navalha.” Canta o
protesto.
Com espanto constatamos o obvio: o
crime organizado é organizado; nós não... A vida social tornou-se um filme de
constante sobressalto, na qual a mídia é responsável por propalar,
reiteradamente, um clima de barbarização em que parece que a vida urbana
tornou-se uma “hobbesiana” “guerra de todos contra todos”. E o governo,
leniente, panaca, omisso, quando chega com seus dispositivos protetores ao
cidadão, chega tarde, chega errático.
A
Justiça, essa alcandorada criação dos gregos e dos romanos, esse ideal
referencial da civilização ocidental tornou-se , em nosso país progressivamente
lento, errático, ineficaz e amplamente insatisfatório. Tem que mudar. Vai
mudar. Vai melhorar! Esse é o imperativo da sociedade brasileira as vésperas de
2010.
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